Ratos de Porão – Boka

Mais de três décadas de pancadaria sonora, dedos nas feridas da sociedade e reconhecimento nacional e internacional. Falar sobre o Ratos de Porão sem soar repetitivo é uma tarefa árdua, pois todo brasileiro fã de metal, punk e hardcore conhece a banda e sabe da sua enorme importância para a cena nacional. Conversamos com o baterista Boka sobre a carreira do Ratos, formações da banda, política, sociedade e outras coisas. Confira o bate-papo abaixo.

Ratos de Porão

São trinta e seis anos desde a fundação e trinta e três anos desde o primeiro álbum. Muitos de seus fãs ainda não eram nascidos quando o Anarkophobia, já em 1991, foi lançado e com certeza, alguns não chegaram a ver o lançamento do Carniceria Tropical, pois este também já tem vinte anos de história. Como é para uma banda como o Ratos atingir mais de uma geração de fãs?

Boka: Este sempre foi um dos motivos da banda continuar, se não tivéssemos mais gente nova interessada na banda, nossos shows já estariam muito vazio desde o final dos anos 90.

Outra coisa é a resistência do underground e dos estilos de músicas mais extremas através das décadas. Talvez seja algo que jamais acabe. Quer saber a verdade? Para nós é um prazer e uma alegria muito grande poder estar a tanto tempo tocando numa banda tão foda quanto o Ratos de Porão.

Desde a chegada do Juninho, essa é a formação mais duradoura da história da banda. Antes dele, o Ratos chegou a ter vários baixistas. Por que essa formação tem dado tão certo? É a melhor formação que a banda já teve?

Boka: Na verdade o Juninho é um cara de fácil convivência, gosta muito do que faz e tem vontade sempre, como músico, ele tem muita qualidade e certamente agrega para a banda.

Os outros baixistas que passaram pelo Ratos com exceção do Jabá, pediram pra sair, houve alguns problemas e talvez tenha sido a melhor decisão que eles tomaram. Vida que segue…

Vocês gravaram versões em inglês de alguns álbuns, mas deixaram essa prática para trás. O último álbum, Século Sinistro ainda contém no encarte traduções para o inglês, pois o Ratos tem um nome forte no exterior. Se pintasse uma boa proposta para fazer uma versão em inglês do Século Sinistro ou até de um álbum mais antigo, como o primeiro e clássico Crucificados Pelo Sistema, seria algo a se pensar?

Boka: Bem, esta é mais parte do Gordo, mas na real é que o Ratos não soa bem em inglês, por mais que ficasse legal e o público de fora não entenda o português, o timbre da voz muda e o Gordo não tem tanta fluência assim no inglês pra fazer isso, acho que hoje em dia tornou-se irrelevante pra banda cantar em outra língua.

Em 2012, em um show do Ratos na cidade de Leme, interior de São Paulo, logo no início do show, provavelmente ainda na primeira música, testemunhei um dos presentes proferindo algumas ofensas e provocações à banda. No mesmo ano em Uberlândia/MG, outro cidadão fez uso da mesma prática e, pior, ainda subiu no palco para brigar com João Gordo. A pancadaria tomou conta do local e o cara acabou levando a pior. Esse tipo de provocação ainda acontece com muita frequência nos shows do Ratos?

Boka: Na verdade, uma vez ou outra acontece um episódio destes. Daí a gente comenta durante uns 2 ou 3 dias e esquece. Sempre tem alguém que está chapado e que passa um pouco do limite ou que está no lugar errado e acaba se exaltando.

Vocês chegaram a ouvir o comentário sensacionalista (tinha até música de suspense de fundo) de uma rádio local, criticando o “Ratos DO Porão” (sic) pela atitude? O vídeo com o áudio está no Youtube.

Boka: Sim, achamos engraçado. Só isso.

A música Viciado Digital fala um pouco sobre o que a internet tem se tornado. Muitas pessoas com necessidade de exposição e de provar aos outros (até para desconhecidos) que são pessoas boas ou como são fodas em alguma coisa. Fora isso, é também uma terra de conflitos, onde raramente uma opinião diferente é respeitada. Especialmente opiniões políticas. Vocês sofrem com essa intolerância de opiniões nas redes sociais? Será que há algo de bom a ser tirado dessa situação como um todo?

Boka: Todo esse fenômeno digital é novidade para todo mundo, acho que as pessoas de um modo geral estão aprendendo e descobrindo como lidar com a internet e redes sociais, mas acho que existe um vicio sim, meio que estar online por estar, etc… isso não é saudável, me incomoda um pouco.

Muita gente fala bem ou mal da gente ou do nosso trabalho, isso é normal, nunca seremos unanimidade, isso é impossível, quem não sabe lidar com isso não pode tocar numa banda, isso vale pra todo mundo, não somente pra gente.

Na verdade é um período de muitas mudanças e a internet em si, mudou as relações sociais e de trabalho, a maneira como agimos, etc… Eu não costumo entrar em embates online, principalmente com quem não conheço, cada um é cada um.

Suas letras abordam os problemas políticos e sociais do Brasil e do mundo há mais de trinta anos. E algumas letras, escritas há muito tempo, infelizmente ainda soam atuais no nosso país. Será que algum dia essas letras se tornarão uma história distante? Ou melhor, acreditar que o Brasil vai melhorar, realmente é uma ilusão?

Boka: A parte lírica do Ratos é meio que um jornalismo punk, não é politizada ou ideológica em sua grande maioria, Gordo sempre deixou isso claro, não existe uma “bandeira”.

A história se repete sempre, isso é estudo na filosofia em geral, vivemos hoje em um mundo capitalista, mas ele não pode ser perpétuo, algum dia vai desmoronar e pode ser que venha algo ainda pior ou melhor, a história prova que os impérios não duram pra sempre certo?

Eu tenho uma visão muito específica e utópica sobre política, as melhoras pontuais são necessárias e as apoio obviamente, meu pensamento é progressista neste sentido, mas quanto a governantes e leis sou um descrente.

Se apresentar no Rock in Rio seria uma boa para vocês? Há chances disso acontecer?

Boka: Recebemos uma proposta uma vez e não agradou, preferimos não fazer.

Tocar em um Rock in Rio poderia sim ser legal, mas não mudará nossa vida em nada, os festivais de metal e punk na Europa ou EUA são bem mais legais e tem a ver com o que pensamos de um festival, muita gente coloca uma participação no Rock in Rio como um reconhecimento, um “prêmio”, não vejo desta forma, puro negócio, normal, não poderia ser diferente. Não que outros festivais não sejam negócio também, mas eles têm uma linha a seguir que tem mais a ver.

E quanto aos festivais mais underground no Brasil, onde vocês já tocaram, como Roça ‘n’ Roll, Otacílio Rock Festival e Maniacs Metal Meeting. Como são esses eventos pra vocês?

Boka: Gosto muito de todos, principalmente o Abril Pro Rock e o Goiânia Noise.

Vocês sempre tocaram covers de bandas que são fãs ou que os inspiraram de alguma maneira. Em 2013, trinta e seis bandas se reuniram para realizar um tributo merecido e memorável, o Ratomaniax, que reuniu grandes nomes do cenário nacional, como Violator, Ação Direta, Delinquentes, Claustrofobia, Korzus e muitas outras. De quem foi a ideia do tributo e qual foi a reação da banda ao ver o resultado final?

Boka: Este tributo foi idealizado e feito por um fã da banda, Eduardo que hoje é baterista do Periferia S.A., acho demais o tributo, gostei muito!

Até o Hillbilly Rawhide entrou na dança, com a versão mais inusitada do tributo…

Boka: Inusitada não sei, mas gosto muito do Korzus e do Social Chaos,

Ainda falta alguma coisa para vocês alcançarem?

Boka: Faltar não falta, mas é sempre muito bom fazer sons novos e gravá-los, portanto ainda tem lenha pra queimar.

Muito obrigado pelo tempo cedido. Foi uma honra entrevistá-los.

Boka: Obrigado!

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