Falar no nome do Mysteriis é lembrar de uma banda que é conhecida por ótimos trabalhos musicais, e também por inúmeras polêmicas em seu passado. Aproveitando que a banda retomou as atividades, bem como está engajada em um projeto do relançamento de About the Christian Despair em versão LP, fomos falar com Mantus, guitarrista e um dos fundadores da banda sobre o projeto, sobre a volta e também sobre o passado e as polêmicas que envolveram a banda.

Metal Samsara: Primeiramente, agradecemos pela atenção, e gostaríamos de saber o que motivou o hiato em que o Mysteriis ficou envolto após 2005, a volta da banda ano passado, bem como o lançamento do CD Hellsurrection.
Mantus: Sinceramente nunca imaginei que fossemos retornar de fato às atividades. Apesar de termos dito naquela época que estávamos apenas dando uma pausa por tempo indeterminado, a ideia era realmente terminar a banda, já que não estávamos felizes com o que estávamos produzindo. Além disso, aquela constante mudança de formação acabou transformando nossa música e nos levando para um caminho que eu particularmente não gostava 100%. Eu não estava satisfeito com o trabalho e já de saco cheio de tantos problemas e divergências de opiniões dentro da banda! Alguns anos passaram e de alguma forma retomamos o contato entre os membros da formação original. Com aquela nostalgia durante nossas conversas, veio à tona a ideia de retornar e gravar um disco novo. A princípio achei que não fosse acontecer de verdade, mas surpreendentemente deu certo e até chegamos a tocar em um show ao vivo, comemorando esse retorno, o que foi fantástico! O que nos motivou foi exatamente essa possibilidade de ter aquela velha formação de 15 anos atrás produzindo música de novo. Caso contrário, o Mysteriis continuaria enterrado…

MS: Vocês fizeram o show de lançamento do CD ano passado no Rio de Janeiro, no Garage, sob a tutela de Fábio “Diabo Velho” Costa, que infelizmente não está mais entre nós. Como foi fazer este show após anos inativos, e aproveitando, qual é a sensação de, poucos meses após o show, terem recebido a notícia do falecimento de Fábio? 
Mantus: O Fábio já não estava indo muito bem de saúde há muitos anos e a situação dele estava só piorando. O temos como um grande amigo/irmão de longa data, desde 92, inclusive foi ele quem organizou o primeiro show do Mysteriis, em 1999. Ele também ficou um bom tempo inativo e quando resolveu retornar às produções de eventos, tivemos várias conversas e demos muitas risadas lembrando da época de ouro do Garage lá na Rua Ceará. Ele era um grande fã do Mysteriis e sempre nos deu muita força! Na ocasião em que ele organizou esse nosso último show, no ano passado, ele já estava muito mal me dizia que queria muito fazer o show de retorno do Mysteriis e que depois disso poderia morrer feliz. E por uma coincidência fatídica, foi exatamente o que aconteceu. Nós não estávamos sequer ensaiando, pois estou morando desde 2008 na Serra Gaúcha, enquanto os outros integrantes residiam no Rio, mas fiz questão de investir em viagens para o Rio para trazer a banda à tona novamente e possibilitar a realização do show com o Fábio. Foi um trabalho imenso! Aquele show, mesmo ele estando ainda vivo, foi nosso presente e forma de agradecimento por tudo que ele fez para o Mysteriis e acabou servindo como nossa despedida de um grande amigo e pessoa extremamente importante para os cenários carioca e brasileiro. Ficamos todos muito tristes obviamente, mesmo sabendo que uma hora ou outra essa notícia iria chegar. O legado dele ficará para sempre na memória dos amigos e bandas que tiveram a oportunidade de conhecer essa figuraça da cena metal carioca.

Mysteriis

MS: Falando do passado, uma pergunta que ainda não calou, e que ainda há pessoas perguntando o que ocorreu entre 2001 e 2002 no Rio de Janeiro: como se deu a polêmica entre vocês e o finado Nocturnal Worshipper? É fato que o baixista Hofgodhar se converteu ao cristianismo? E houve boatos que ele novamente anda aparecendo em shows, sabe se é verdade isso?
Mantus: O problema era dele conosco e não o contrário. Não havia polêmica alguma, era tudo verdade e não só tinha ligação com o Mysteriis, como também com outras bandas do Rio que queriam a pele dele (rs). Ele era um recalcado incompetente vivendo do passado do Nocturnal Worshipper. Por alguma razão, ele se sentia mal com a atenção que algumas bandas do Rio estavam tendo, enquanto a banda dele não ia para frente. Ele falou muita besteira… Ele também se achava o Euronymous tupiniquim, o velhão da cena, o radical… Inveja seria a palavra mais coerente aqui, talvez… Mas a história é muita longa pra ser contada em uma entrevista. Existem outros milhares de detalhes… Conosco inclusive chegando pro lado pessoal da coisa, pois chegamos a ser amigos antes da coisa toda acontecer. E sim, ele se converteu realmente ao cristianismo do porco. Como todos os radicalóides mega extremos contraditórios da cena que vêm e vão com o passar dos anos. Me lembro na época que ele distribuía flyers anti-Mysteriis e inventava estórias, dizendo que éramos gays, playboys, cristãos etc. Isso ainda frequentando minha casa, negando tudo na minha cara, até o dia em que foi comprovado e a merda estourou. Hoje, depois de 15 anos estamos aqui sempre batalhando no underground, não só com o Mysteriis, mas também envolvidos com outros milhares de projetos. Eu pessoalmente vivo do metal… Meu trabalho diário é com o meu já faz alguns bons anos. Onde está ele agora? Quem é o cristãozinho demente da estória toda? Chega a ser engraçado e fico imaginando a cara de idiota daquelas pessoas que acreditaram na conversa fiada dele. Recentemente, alguns amigos me informaram que ele estava presente em shows de metal e até black metal e que está morando em Porto Alegre. Claro, fugiu do Rio, haha… Foi literalmente expulso da cena… E não vai durar muito aqui no Sul também não, te garanto. Hoje em dia esse sujeito só tem o meu desprezo.

MS: Ainda falando do passado, após os lançamentos de About the Christian Despair e do EP Fucking in the Name of God, toda hora era anunciado o lançamento do segundo CD da banda, Stigmati Diaboli, que nunca chegou a ser lançado, mas chegou a vazar na net. Poderia nos dizer o que causou este não lançamento, uma vez que o CD já estava pronto?
Mantus: Até hoje eu não sei dizer o porquê… Finalizamos o material e mandamos para a Demise Records. Eles chegaram até mesmo a anunciar o lançamento através de anúncios de revistas. O tempo passou e nada foi feito, chegamos a brigar com eles sobre a demora do lançamento, mas não adiantou… Um tempo depois ouvi dizer que eles estavam dando “voltas” em clientes e na sequência disso fecharam as portas. Sumiram do mapa… O álbum foi simplesmente esquecido e depois de um tempo acabou vazando na internet.

MS: Ainda falando dos discos, excetuando-se Hellsurrection, que segue a linha inicial da banda, Fucking in the Name of God e Stigmati Diaboli diferem completamente de sua sonoridade original. Por que eles são tão diferentes?
Mantus: Nunca tivemos muitas barreiras na hora de compor um material, fazer sempre a mesma coisa é algo muito chato e monótono pra mim. Acredito sempre naquela evolução discreta e sincera, adquirida por meio de muito suor e sangue. Em todo caso, nada daquilo foi intencional. O que aconteceu foi que a formação começou a sofrer mudanças muito cedo e com ideias e influências diferentes a coisa acabou indo por um outro caminho. Eu sempre procurei não ser um “ditador”, mesmo sendo fundador da banda sempre dei espaço para os outros integrantes, inclusive os novos, para eles se sentirem “em casa”, talvez esse tenha sido meu maior erro… ou não (rs). Não que eu não goste desses outros materiais, o EP eu até acho interessante, apesar de odiar a produção sonora dele. Nunca fui muito satisfeito com as nossas produções e, contraditoriamente, a coisa que acho mais fantástica que fizemos até hoje foram as demo tapes, que tem um som “sofrível” e de péssima qualidade. Acho que gosto delas pela verdade que transpiram, além de resgatar boas lembranças na época em que foram feitas. Já o Stigmati Diaboli, eu realmente não gosto, porém quando eu tento visualizar o álbum como um todo e de fora do Mysteriis, eu acho aceitável. Não gosto dele pro Mysteriis, não é a cara da banda nem de longe e foi gravada numa época extremamente conturbada e com milhares de mudanças na formação. É quase um trauma que tenho desse álbum, sendo bem sincero… Mas vejo que existem pessoas que o adoram, talvez até mais do que o primeiro, que para mim é insuperável. O Stigmati tem uma história engraçada, pois nunca foi lançado, todos ouviram e chegou a influenciar algumas bandas. Virou algo quase “cult”. Então é aquela coisa, GOSTO é algo realmente subjetivo e não dá pra agradar a todos.

Mysteriis

MS: Há boatos que, no Rio de Janeiro, entre 1999 e 2005, houve uma facção de bandas que se chamava Black Circle, formada por bandas cariocas que visava a proteção mútua e a limpeza da cena de pessoas que viviam causando intrigas e problemas. Isso era fato? E quais as bandas que estavam envolvidas nisso?
Mantus: Posso dizer que realmente existiu algo similar a isso, mas, honestamente, prefiro não dar nenhum detalhe e nem citar nomes. Na realidade, existiam os dois lados da moeda e ainda houve muito bafafá e telefone sem fio com essas histórias. Daria um livro. Prefiro acreditar na famosa seleção natural das coisas. O tempo sempre é o dono da razão!

MS: Agora, vamos falar do presente: vocês estão com o projeto de pré-venda da versão vinil de About the Christian Despair. Como surgiu essa ideia? Isso significa que teremos versões em vinil do EP e finalmente uma versão física do segundo álbum?
Mantus: Há muito tempo temos amigos e fãs pedindo um relançamento desse primeiro álbum. Ele se tornou uma espécie de clássico do black metal nacional, o que muito nos orgulha. Inclusive, ele foi mencionado na edição comemorativa da revista Roadie Crew, como um dos 60 maiores discos de metal do Brasil, ao lado de grandes bandas como Sepultura, Sarcófago, Dorsal Atlântica, Ratos de Porão, entre muitas outras. Além disso, é um material muito raro de se conseguir hoje em dia, até mesmo usado. Ele teve duas prensagens, a primeira em 1999 e a segunda em 2000, ambas esgotadas há mais de dez anos. Com toda essa procura e visto que completamos 15 anos de estrada em março, aproveitamos e resolvemos pôr em prática o projeto deste relançamento, como sendo algo especial, limitado e na versão em vinil/LP, para comemorar a data. Em relação a outros relançamentos, ainda é cedo pra falar. Se o lançamento do About… em LP realmente funcionar, vamos querer também fazê-lo em digipack e K7. Ainda estamos trabalhando em um álbum novo para o final desse ano, então tem muito trabalho pela frente. Sobre o Fucking in the Name of God e o Stigmati Diaboli, sinceramente, em curto prazo, não existem planos. Mas nunca se sabe…

MS: Mantus, é fato conhecido que você trabalha em vários outros projetos, como o Patria, logo, isso não seria problemático no tocante às agendas? E como é que você consegue fazer tanta coisa ao mesmo tempo? Este autor passa quase 20 horas acordado e não consegue! (rs)
Mantus: Na realidade não. Nenhuma das bandas é tão ativa na questão de shows que possa haver qualquer tipo de conflito na agenda ou coisa do tipo. Eu procuro conciliar bem as coisas, odeio fazer tudo ao mesmo tempo, apesar de às vezes parecer, não é exatamente assim que acontece. Quando a gente quer abraçar o mundo de uma vez só, a gente acaba fazendo várias coisas com pouca qualidade ou de uma forma que não seja possível alcançar o 100% daquilo. Eu prefiro focar e trabalhar numa coisa de cada vez, tirando o máximo de qualidade e proveito disso. O Patria atualmente é a minha banda mais ativa, já que estamos constantemente ensaiando e vagamente fazendo um show ou outro. Além disso, estamos com disco novo na praça e deve acontecer ainda muita coisa legal nesse ano de 2013. Mas os trabalhos com o Mysteriis só começaram quando o Patria estava entregue e pronto pra ser lançado. Enfim, cada coisa na sua hora exata, sem afobação, é assim que funciona. E claro, eu também durmo pouquíssimo e trabalho igual um porco maldito (rs). Mas eu faço o possível pra me organizar da maneira certa e conseguir produzir tudo aquilo que eu tenho “no papel”. Geralmente funciona bem…

Mysteriis

MS: As pessoas andam perguntando bastante se o Mysteriis fará mais shows pelo Brasil, uma vez que o evento da volta, no Rio de Janeiro, foi muito concorrido. E pretendem relançar toda a discografia da banda em CD, em algo como um box? Por favor, diga que sim!
Mantus: Sobre os shows, infelizmente tenho que dizer que é algo incerto. O gasto para isso acontecer é altíssimo, visto que eu moro a 1.600 km de distância do resto da banda. São passagens aéreas, táxis, estúdio, etc. E, para piorar, nosso vocalista também se mudou do Rio e está agora em Joinville (SC). Nos falta tempo devido ao nosso trabalho e mais ainda grana para investir nisso. O custo pra uma reunião para ensaios e preparativos para shows é absurdamente caro e está além do que qualquer produtor de eventos, por mais maníaco que seja, possa arcar. Infelizmente, temos que nos contentar com isso por enquanto, mas quem sabe para o futuro as coisas voltem a acontecer! Em relação ao relançamento da discografia, já está acontecendo aos poucos, mas também não queremos nos prender a isso. Nosso foco principal agora é apenas no About The Christian Despair e daqui alguns meses, como disse anteriormente, o lançamento de um novo álbum. De qualquer maneira com certeza seria algo fantástico ter um box ou algo de luxo assim com o nosso material.

MS: Já soubemos que no show do Rio de Janeiro o baterista Malphas não participou (NR.: quem tocou foi o conhecido baterista MKult), e ainda tiveram a adição de D. Arawn nas guitarras junto com você. Esta formação é a atual, ou a banda ainda anda tendo problemas em estabilizar o line-up?
Mantus: Para shows, se ainda fossem possíveis, essa seria de fato a formação atual. Ainda tivemos nos teclados Blitzgork, que foi quem gravou o primeiro álbum e o EP. Todos eles fizeram um ótimo trabalho com a gente, se dedicaram 666% e ficamos bastante satisfeitos com isso. Somos grandes amigos e é sempre muito legal tê-los com a gente. Vale ressaltar que o Malphas (batera original) gravou o Hellsurrection e é ele quem vai gravar o disco novo também. Ele só não tem tempo disponível suficiente para shows, como no momento nenhum de nós tem na verdade devido à logística da coisa. Por esse motivo é que tivemos aquela formação ao vivo no último show do Rio. Aquele show foi memorável!

MS: Agradecemos demais pela entrevista, desejamos que continuem causando desgosto nos mais conservadores, que relancem todos os discos em LP e CD. Deixamos o espaço para suas considerações finais para os leitores.
Mantus: Nós que agradecemos pela força e espaço aqui cedido para falarmos um pouco sobre o nosso trabalho. Obrigado a todos! Sem dúvida continuaremos a desagradar os ouvidos e gerar pesadelos aos retrógrados cordeirinhos de deus. Salve o black metal brasileiro!!!

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