Inquisition – Dagon

A banda colombiana Inquisition, uma das maiores forças do black metal sul-americano, foi uma das atrações da edição de 2014 do festival Brutal Assault, que aconteceu em agosto, na República Tcheca. Com mais de duas décadas de carreira, hoje a banda conta apenas com Dagon (vocal e guitarra) e Incubus (bateria) na sua formação, e 2015 parece ser um ano promissor para a dupla: a partir deste mês, a banda oficialmente relançará toda a sua discografia pela Season of Mist, inclusive com novas artes gráficas. Ainda em janeiro, o Inquisition também embarca em uma turnê pela Europa, com 19 shows confirmados. Pouco antes de sua apresentação no Brutal Assault, o vocalista Dagon concedeu uma entrevista ao Portal do Inferno, onde comentou a ansiedade de tocar em um grande festival europeu, a repercussão do mais recente álbum da banda, Obscure Verses for the Multiverse (2013), os planos para seu sucessor, que deverá ser lançado em 2016, e a ansiedade pela turnê europeia. Confira a seguir:

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Portal do Inferno: É ótimo ter o Inquisition aqui na 24ª edição do Brutal Assault. É evidente que há muitos fãs entre o público presente desse ano que estão ansiosos pelo show. Como você se sente ao ver tamanha reação nesse festival tão conceituado?
Dagon: É uma surpresa, pois é um risco que corremos. Eu gosto de ser honesto com as pessoas em todas as entrevistas e, quando eu digo honesto, quero dizer que não vou mentir e dizer que está tudo ok. Quero dizer, está, mas nós estamos brincando com fogo aqui, se pensarmos “o clima vai se perder?” ou “as pessoas vão nos associar a coisas negativas?”. Sabe, nós nos importamos mais com o culto das pessoas obstinadas. E por me importar e ser um deles, eu me preocupo bastante com o fato de que o Inquisition, mesmo ainda crescendo, é um culto, de certa forma, nós fazemos coisas bem diferentes, mesmo dentro do nosso estilo. E às vezes as pequenas coisas nos fazem diferentes, como ser uma banda com dois caras com vocais que algumas pessoas não gostam, isso se torna um risco quando você toca em um festival como o Brutal Assault. Sabe, não dá pra evitar pensar no que pode acontecer. Até agora, vimos muito mais apoio do que jamais pensamos em ter. É uma espécie de divisão que temos como uma banda underground de black metal, os fãs que são mais excêntricos e nem gostam de ir a esses grandes festivais, que às vezes são chamados de mentes fechadas, enfim… eu não estou aqui para julgar ninguém… e, então, você tem os outros fãs que não são do black metal mas que gostam do Inquisition porque eles perceberam que somos autênticos no que fazemos. Nós tocamos nesses festivais por nós mesmos, a maior coisa é tocar ao vivo, nós realmente gostamos de tocar para muitas pessoas. Só porque a música é obscura e cruel, na minha opinião pessoal, não significa que você tem que forçar as coisas para ficarem desse jeito. O final da estória aqui é que os fãs nos trouxeram para tocar nesses grandes festivais como o Brutal Assault: como muitas bandas, nós queremos exposição sem clichê, sem compromisso. O crescimento é ok, não há realmente só uma resposta em uma dimensão, e nos sentimos bem com isso. Temos uma satisfação extra porque tocamos música extrema e, mesmo assim, as pessoas se conectam a isso.

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Inquisition, no The Forum, em Londres (foto: Fabiola Santini)

P.I.: Concordo plenamente com os fatores de atração que o Inquisition gera. Vocês vão tocar entre os shows do Children of Bodom e do Slayer, como você se sente como sendo a banda que arranca os fãs das performances desses grandes nomes?
Dagon: É difícil responder, porque eu acho que é algo positivo. É algo que eu paro de pensar imediatamente porque quero focar na apresentação. É claro que é sempre uma surpresa quando você vê todos na sua frente e o fator de espanto, aquele WOW, aparece. E não somente pelas pessoas que vieram para nos ver, talvez existam pessoas que virão e saiam dizendo: “HA! Eu nunca liguei para essa coisa, mas agora estou curioso e vou conhecer mais”. Sabe, somos caras velhos, somos da mesma geração do Quorton do Bathory. Ele não era muito preocupado com a seleção de fãs, era apenas: isso é o que eu faço e é dessa forma que é feito, e se você gosta, você gosta. De forma alguma estou comparando o Inquisition ao Bathory, mas é um bom paralelo e é justo no sentido de que não temos uma mente fechada quando se trata de quem pode nos ouvir e nos ver e quem não pode.

P.I.: O line-up do Brutal Assault é, mais uma vez, um dos melhores por aqui nessa temporada. Você vai ficar até o final do festival e, se sim, tem alguma banda que você é fã e planeja ver?
Dagon: É uma boa pergunta. Honestamente, não há de fato nenhuma banda que eu seja fanático nesse festival, mas, é claro, quero ver algumas. Tipo o Slayer, eu os vi em 1991, foi incrível e ainda tenho essa mesma sensação, como se os tivesse visto ontem, sabe? Eu perdi o show deles, infelizmente, mas eu queria ver o Obituary mais cedo. Ainda não vi o MGLA, eles vão tocar amanhã e com certeza tentarei vê-los.

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Dagon, do Inquisition, ao vivo no Brutal Assault (foto: Fabiola Santini)

P.I.: Obscure Verses for the Multiverse foi um dos meus lançamentos preferidos de 2013.
Dagon: WOW! Obrigado.

P.I.: Ele ainda soa como novo já que é um álbum muito forte que não exige um sucessor agora. No entanto, vocês já estão trabalhando em um novo material?
Dagon: Eu diria que… nosso próximo álbum será o gêmeo mal de Obscure Verses for the Multiverse. Eu o classificaria como muito explosivo, eu queria que a arte, a música, o tema fossem muito explosivos. Algumas pessoas viram isso positivamente, outras, negativamente. Para alguns, ele é muito extravagante e eu compreendo, já que é um álbum muito expressivo e elevado, o que é algo que geralmente o black metal não faz. Algumas pessoas provavelmente não sabem que black metal é, em sua maioria, escrito usando escalas menores, o que poderiam ser as teclas pretas do piano. Obscure Verses for the Multiverse é, de certa forma, o oposto disso já que foi composto com escalas e tons maiores. Há muita poder, vitória e celebração no som e é isso o que eu queria nesse álbum. O próximo, eu descreveria como uma caverna, pois queremos ir o mais fundo que conseguirmos, ainda terá alguns momentos de elevação, mas voltará às notas mais baixas. Para algumas pessoas, pode parecer o retorno aos primeiros discos do Inquisition, mas mesmo esses trabalhos não foram tão obscuros e agressivos como o que temos escrito até agora para o próximo. Vai ser muito, muito obscuro, um som clássico do Inquisition que você reconhecerá nos primeiros dez segundos, será como “uma gravação na sua cara”. O que eu não quero é me comprometer com o estilo, por que eu iria querer isso? Isso, por si só, seria uma forma de vender. Bandas, como o Motörhead, têm tocado o mesmo estilo por muitos anos, e há uma razão para isso.

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Incubus, do Inquisition, ao vivo no Brutal Assault (foto: Fabiola Santini)

P.I.: Podemos falar sobre o prazo para esse disco, então?
Dagon: Eu quero entrar no estúdio mais ou menos em outubro de 2015 e, dito isso, em fevereiro de 2016. Nós sempre tentamos oferecer um contraste com os nossos álbuns anteriores para que a dinâmica total da discografia fique clara. Pense em um livro com diferentes dinâmicas em cada capítulo, dinâmicas que são sentimentos e emoções.

P.I.: O Inquisition fará uma turnê pela Europa agora em janeiro de 2015.
Dagon: Sim, até o momento tudo está confirmado, e estou muito feliz com as casas de shows e bandas que tocarão conosco. Nos pediram para escolher essas bandas: não quero ser egocêntrico aqui, mas eu as escolhi pessoalmente e elas toparam na hora.

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Inquisition, no The Forum, em Londres (foto: Fabiola Santini)

P.I.: Alguma mensagem final?
Dagon: Eu sempre lembro as pessoas que nós tocamos muito ao vivo, é o que nós gostamos de fazer e tocamos porque as pessoas pedem, nós não saímos por aí forçando os shows a acontecerem. Preferimos ver as pessoas vindo aos nossos shows do que apenas que elas fiquem sentadas em suas casas com fones de ouvido ligados em seus iPods.

English version

Portal do Inferno: Great to have Inquisition here at the 24th edition of Brutal Assault. It’s clear that that are many fans among this year attendees that are looking forward to your show later. How do you feel to have such a major follow-up a this very well-known festival?
Dagon: It’s a surprise because this is a risk that we have taken. I like to be honest with people in all interviews, and what I mean by honest is that I am not going to lie and say it’s all ok. I mean it is but we are playing with fire a little bit here, if we think “is the atmosphere going to be lost?” or “would people associate us with negative things?”. You know, we are more about the cult underground die-hard people and I do care. And because I care and I am one of them I take great care of the fact that Inquisition, even if we are growing, we are still to a certain extend a cult, we do things quite differently even within our gender. And sometimes the small, little things that make us different, like from being a two piece band to the vocals that some people do not like, became a risk when you play at a festival like Brutal Assault. You know, you cannot help but wonder what it’s going to happen. So far, we have always seen far more support than what have ever thought we’d get. It’s a kind of a split following that we have as an underground black metal band, the fans that are more erratical and do not even like to come to these big festivals, that sometimes are called close-minded, what ever…. I am not here to judge anybody.. And then you have the other fans that are just more in general the metalheads, or the ones that are not into black metal but like Inquisition because they realize that we are authentic at what we do. We play at these festivals because for us, the greatest thing is to play live, we do enjoy playing live in front of a lot of people. Just because the music is obscure or grim in my personal opinion it does not necessarily mean that you should force things to remain that way. The end of the story here is that fans brought us to play at these great festivals like Brutal Assault: like many bands we want the exposure without its cliché, with no compromise. Growth is ok, really there is no one-dimensional answer, we feel good about it. We get some extra satisfaction because we play some extreme stuff and yet people are connecting with it.

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Inquisition at The Forum, London (photo: Fabiola Santini)

P.I.: I could not agree more on the attraction factors that Inquisition generate. As you are playing right in-between Children Of Bodom and Slayer, how do you feel about being the band that takes away tonight fans from the performance of such big names?
Dagon: It’s hard to answer because I guess it’s a positive thing. It’s something that I quickly stop thinking about because I want to stay focused on the presentation, and not so much on analysing how many people are coming to our show tonight. Of course it always come as a surprise when you see everybody in front of you, the WOW factor kicks in. And not only for the people that come and see us because they know us, there may be people that come, leave and say: “HA! I was never into this stuff but now I am curious and I will look into it”. You know, we are old guys, we are from the same era of Quorthon from Bathory. He was not too concerned about fans selection, he was just about: this is what I do and this is how it’s done and if you like it you like it. By no means I am comparing Inquisition to Bathory but it’s a good parallel and it’s fair in the sense that we don’t get too narrow minded when it comes to who gets to hear and see us and who doesn’t.

P.I.: The Brutal Assault’s line-up is once again one of the best around this summer. Are you staying here until the end and if so, is there any band you are planning to watch is as a fan?
Dagon: It’s a good question. Honestly, there is not really any band I am fanatical about at this festival but of course there are some I want to see. Like Slayer, I saw them in 1991, it was amazing and it still feels as if I saw them yesterday you know? I missed them unfortunately, but I wanted to see Obituary earlier on. I haven’t seen MGLA yet, they are playing tomorrow and I will definitely try to see them.

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Dagon, live at Brutal Assault (photo: Fabiola Santini)

P.I.: Obscure Verses for the Multiverse was one of my favourite releases of 2013.
Dagon: WOW! Thank you.

P.I.: It still feels new since it’s such a strong album that does not require a follow-up just yet. However, are you working on new material right now?
Dagon: I would say …our next album will be the evil twin of Obscure Verses for the Multiverse. The way I would label our last album is very explosive, I wanted the artwork, the music, the topic to be very explosive. Some people got it a positive way, others in negative ways. For some people it was too flamboyant and I understand as in a way it was a very expressive and uplifting album which is something that normally black metal doesn’t do. Some people probably don’t know that black metal is mostly written using minor keys which would be the black keys on a piano. Obscure Verses for the Multiverse is somehow the opposite of that as it was written using major scales and major tones. There is a lot of empowerment, victory and celebration in the sound and that’s what I wanted on this album. The next one, I would describe it like a cavern, as we want to go as deep as we can, still going into some uplifting moments but then going back to some minor keys. For some people this may seem going back to some of the earlier Inquisition albums but even those earlier albums were not as obscure and aggressive as what I have written so far for the next one. It’s going to be very, very dark, a classic Inquisition sound which you will recognize in the first ten seconds, it will be a “in your face recording”. What I do not want to compromise is the style, why would I want to do that? That in itself would be a form of selling out regardless. Bands like Motorhead have been playing the same style for so many years, and there is a reason for that.

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Incubus, live at Brutal Assault (photo: Fabiola Santini)

P.I.: Can we talk about timing then?
Dagon: I want to be in the studio around October 2015 and have it say it… by February 2016. We have always tried to offer a contrast with our previous albums so that the overall dynamic of the discography is clear. Think of a book with different dynamics in each chapter, dynamics meaning feelings and emotions.

P.I.: Inquisition will be headlining a European tour in January.
Dagon: Yes, so far everything has been confirmed, I am very happy about the venues and the bands we will be touring with. We have been asked to pick these bands: not to be egocentric here but I personally picked them and they were all ready to do it.

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Inquisition at The Forum, London (photo: Fabiola Santini)

P.I.: Any parting message before you go?
Dagon: I always remind people that we play live a lot, that’s what we like to do and it’s all by demand, we do not go around pushing for shows to happen. We would prefer have people coming to our shows rather than just sitting at home with their headset plugged into their iPod.