Há quase três décadas, o Sepultura é o maior nome do heavy metal brasileiro e uma importante referência para o estilo no mundo. Após uma longa e bem-sucedida turnê mundial em promoção do álbum Kairos, de 2011, passando por festivais importantes, como o Wacken Open Air, a banda fez algumas apresentações no Brasil e se prepara para grandes momentos planejados para o ano que vem, como o show no Rock in Rio ao lado de Les Tambours Du Bronx, a finalização de um documentário e mais um álbum de estúdio.

O guitarrista Andreas Kisser conversou com o Portal do Inferno sobre esse momento extremamente especial para a banda, sobre sua conquista pessoal de ser o primeiro brasileiro a ser homenageado com um tijolo no The Cavern Club e, até sobre o atual momento do seu time de coração, o São Paulo Futebol Clube.

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Portal do Inferno: O Sepultura é o maior representante do heavy metal brasileiro em todos os tempos. A banda é respeitada em todo o mundo, seja pela crítica especializada, pelos fãs e por artistas do segmento. Como brasileiros, certamente é uma conquista e um orgulho ainda maior para você, poder viver de música e ainda por cima dentro do heavy metal, considerando que no Brasil o apoio a esse gênero musical é quase que inexistente pela grande mídia, além de ainda sofrer preconceito. Em sua opinião, diante disso tudo, o que falta para o Sepultura conquistar na sua já consagrada carreira?
Andreas Kisser: Não sei, a gente está sempre trabalhando, sempre tentando fazer algo diferente na nossa música. Já fizemos projetos com orquestras, com vários grupos percussivos, tocamos em grandes festivais ao lado dos nossos ídolos. Acho que o Sepultura tem que manter isso: apostar em coisas diferentes também, falar do Brasil, como sempre falamos, e tocar pelo mundo. O Sepultura é uma banda de palco, fazemos shows pelo mundo desde 1989, nossa primeira turnê internacional, e a gente nunca deu uma parada nesse ritmo. Queremos conquistar cada vez mais o respeito e lutar contra o preconceito que ainda atrapalha muito o metal, muita gente ainda tem preconceito por aquilo que a gente veste ou a maneira de se expressar, etc. O metal é um estilo muito pacífico, unido, a galera curte pra caralho e tem uma grande história. Queremos continuar mostrando que o metal faz parte do mundo como qualquer outro estilo musical e que tem condições de fazer coisas com outros estilos sem perder as suas características.

P.I.: Kairos foi um álbum muito bem recebido e críticos o avaliaram como um retorno do som pesado e tradicional do Sepultura. Na sua opinião, o que esse álbum traz de diferente e que causou essa impressão de ser uma volta às raízes da banda?
Kisser: Sem dúvida foi um grande sucesso, mas isso é difícil de explicar, cada um vê de uma forma diferente. Em todos os discos nos dedicamos 100%, fazemos o melhor possível. A parceria com a Nuclear Blast foi muito importante, é o primeiro disco que fizemos com essa gravadora completamente dedicada ao metal, feita por gente do metal que está aí há muitos anos e sobreviveu a muitas mudanças no cenário musical. A participação do Roy-Z como produtor também foi fundamental para a sonoridade que estávamos procurando. Então, são muitos fatores e além do lance do momento certo na hora certa. É um disco que estamos curtindo muito e fazendo a turnê dele há quase dois anos. É gratificante. O Sepultura é uma banda de 27 anos, com tantos discos e tanta história, formações, possibilidades e situações e estamos aqui com um disco forte, com uma grande gravadora. Então é um momento muito bom e estamos felizes que tivemos esse respaldo dos fãs e da imprensa.
Fizemos grandes shows esse ano e, realmente, estamos em um momento muito especial.

P.I.: O Roy-Z trabalhou na produção desse disco. O que influencia a banda na escolha dos profissionais que trabalharão nos álbuns? Quais elementos ele trouxe para a sonoridade do álbum?
Kisser: Analisamos quais bandas a equipe já trabalhou, estilo de som, empatia quando conhecemos as pessoas e o que queremos para o nosso som. Já trabalhamos com muitos produtores diferentes. Antes do Kairos, a gente trabalhou meio que em um esquema independente, apenas com um técnico de som e a própria banda produzindo, com a ajuda de alguns outros produtores, em orquestração e etc. Nesse último disco, sentimos que precisávamos de alguém de fora, com o know-how fodido que o Roy-Z tem. O cara já trabalhou com Bruce Dickinson, Helloween, bandas de estilos completamente diferentes, mas de alto nível. A escolha foi perfeita. Ele conhece tudo de estúdio, possibilidades de gravação, tem mais ou menos a nossa idade e uma grande experiência. Funcionou muito bem.

P.I.: Recentemente, você foi o primeiro brasileiro a ser homenageado no lendário Cavern Club, com um tijolo com o seu nome gravado, ao lado de grandes nomes, como Beatles, Queen e Rolling Stones. O que essa homenagem representa para você, particularmente, e o que ela representa para o Sepultura e para a cena brasileira?
Kisser: É um baita privilégio, uma grande honra ter esse tijolo com o meu nome ao lado de tantas lendas do rock, vários artistas maravilhosos que influenciaram tanta gente, inclusive a mim. É uma forma de respeito à carreira de 27 anos do Sepultura, da carreira internacional tão sólida e forte e, também, da minha própria diversidade de tocar com vários músicos. Eu fui um dos convidados especiais de uma banda de Vitória (ES), a Clube Big Beatles, no festival internacional de Beatles que eles fazem em Liverpool há 18 anos. Eles são muito respeitados lá, fazem shows com diversos convidados e eu tive a chance de tocar com eles. Pela nossa experiência de tocar no Cavern Club e em outros lugares, como na escola que o John Lennon estudou, o meu nome foi sugerido e o pessoal do Cavern e do Festival aceitou com muita alegria. Eles nem conheciam o Sepultura, foram se informar e ficaram muito surpresos com o nome que a banda tem fora do Brasil. Fiquei muito feliz e honrado, é muito motivador.

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P.I.: No ano passado, o Eloy Casagrande assumiu as baquetas do Sepultura e logo encarou uma longa turnê europeia, ao lado do Destruction, Exodus e Heaten. Como se deu a escolha pelo Eloy? Vocês testaram muitos bateristas? Rolou algum tipo de reação negativa dos fãs por ele ter sido baterista do Glória?
Kisser: A gente teve muita sorte de encontrar o Eloy no nosso caminho bem momento em que estávamos precisando, quando o Jean Dolabbella saiu no meio da turnê do Kairos. Foi rápida a escolha, ele estava ali com o Glória, conversamos com ele e ensaiamos, tudo funcionou muito bem. A gente já escutava falar do Eloy há muito tempo, era um músico que se destacava, que começou a tocar muito cedo. Ele fez um teste fantástico, é um músico espetacular e muito jovem, mas tem uma técnica que o Sepultura está aproveitando muito, uma energia boa. Estamos num momento muito forte e especial, a banda está soando melhor do que nunca.

P.I.: Como vocês conheceram os caras do Les Tambours Du Bronx? Além da participação deles na faixa Structure Violence (Azzes), de onde veio a ideia para essa parceria muito bem-sucedida para os shows em grandes festivais?
Kisser: Criamos uma parceria maravilhosa. O show do Rock in Rio foi uma coisa muito especial e que está dando resultados até hoje. Nós fizemos o Rock in Rio Lisboa, o Wacken e no ano que vem vamos fazer o Rock in Rio novamente no Brasil, em setembro. Vamos gravar o DVD lá no palco principal para registrar essa parceria. Conhecemos Les Tambours Du Bronx em um festival na França, em 2008, e eu fiquei impressionado com o som dos caras. A partir daí, começamos a trocar ideias, fizemos essa música do Kairos, depois pintou essa oportunidade de tocar no palco Sunset do Rock in Rio e estamos colhendo frutos disso até hoje. Os shows estão cada vez melhores e queremos manter esse formato para apresentações especiais. Vai ser uma experiência muito legal fazer os sons mais antigos do Sepultura com eles.

P.I.: Este ano foi a segunda vez que vocês tocaram no Wacken Open Air. Após tantos anos de banda e experiência em grandes festivais, qual é a sensação minutos antes de entrar no palco para tocar para uma grande plateia de festival?
Kisser: Ah, é fantástico, né? O Wacken é um festival muito respeitado, organizado por uma galera que faz as coisas com o coração mesmo. É totalmente metal, acho que no mundo não existe um festival de metal tão forte como esse. Nós tocamos no ano passado pela primeira vez, logo após o lançamento do Kairos e foi maravilhoso. Esse ano fizemos um show totalmente diferente, com o Les Tambours Du Bronx, e o Wacken curte muito isso de inovação nos shows. As coisas acotecem de maneira muito profissional, a gente acaba encontrando vários amigos e muitos fãs da América do Sul também. Fazer parte dessa festa metal é muito gratificante. Infelizmente, não vamos fazer no ano que vem, mas espero que em 2014 a gente esteja de volta.

P.I.: Outro formato de show interessante foi o da Virada Cultural, em 2011, com a Orquestra Experimental de São Paulo e alguns shows já estão programados para o ano que vem. Conte um pouco como foi essa experiência. Podemos esperar também algum material futuro do Sepultura orquestrado?
Kisser: Com certeza. Foi o nosso maior desafio juntar a sonoridade do Sepultura com uma orquestra e funcionou muito bem. Apesar de ter alguns problemas de som, o show foi fantástico e a gente viu que essa mistura dá muito certo. A gente está planejando outras coisas também, de repente gravar um DVD ou até um disco. É algo que certamente vai dar mais frutos, talvez no ano que vem a gente tenha mais novidades a respeito.

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P.I.: Além da gravação do DVD no Rock in Rio, quais são os planos para a banda para 2013?
Kisser: Em 2013, a gente deve gravar um disco novo. Já temos algumas ideias rolando, bem no começo, mas a intenção é até o segundo semestre ter um trabalho novo, antes mesmo do DVD do Rock in Rio. Temos alguns shows ainda, talvez a gente participe de um cruzeiro brasileiro com outras bandas também. Tem também o filme do Sepultura que o diretor Otávio Juliano, da Interface Filmes está fazendo. Há um ano e meio ele está coletando imagens, entrevistas e o processo de reunir esse material continua no ano que vem. Espero que em 2014 esteja pronto para ser lançado e contar a história do Sepultura em um grande documentário.

P.I.: Você é um torcedor que apoia e leva o nome do São Paulo Futebol Clube para todos os lugares. Recentemente, o Tricolor contratou o Paulo Henrique Ganso como uma grande promessa. Quais são as suas expectativas para essa fase do time?
Kisser: Eu estou sempre ligado nas notícias do São Paulo em qualquer lugar do mundo, pela internet, hoje em dia é muito mais fácil acompanhar tudo ao vivo. O São Paulo tem se mexido para construir um time melhor. Gostei da chegada do Ney Franco, não curti a saída do Lucas, embora tenha sido bem negociado e gerou várias outras possibilidades para o clube, como a contratação do próprio Ganso. Gostei da chegada dele, é um excelente jogador e com muita motivação. O São Paulo tem um dos melhores centros de tratamento do mundo, o Reffis, que já recebeu até jogadores da Europa para se recuperarem, então acho que o time tem grandes chances de investir no físico do Ganso, sem pressa. A contratação foi feita com muita coragem e persistência e, o mais importante, o cara quer jogar no São Paulo, o que faz toda a diferença, então, acredito que ele tenha um futuro promissor no tricolor.

P.I.: Andreas, valeu pela entrevista, foi uma honra! O espaço é seu para deixar um recado para seus fãs e leitores do Portal do Inferno.
Kisser: Foi um prazer falar com vocês. Agradeço o apoio de todos na divulgação do trabalho do Sepultura, na força que deram para o Kairos. Estamos batalhando pelo Brasil e pelo mundo e é sempre bom contar com o apoio da galera do nosso País. Fiquem ligados no nosso site e redes sociais para datas no Brasil. Estamos na estrada.

Renata Santos

Sou formada em jornalismo e colaboro com sites de música há quase dez anos. Integro a equipe do Portal do Inferno desde 2011.