“Cultura e arte não valem nada. Ninguém mais dá valor, ninguém tá nem aí com quem toca ou com quem produz. É uma geração que se acostumou mal no século XXI, achando que tudo é de graça e que é um absurdo pagar por cultura. É gente que quer tudo de graça, e que se dane os custos de quem produz arte e cultura.” O desabafo é de um um produtor artístico em vias de abandonar a atividade, durante o minifestival de heavy metal ocorrido no domingo à noite em São Bernardo.

Não foram muitos os abnegados que saíram de casa à noite, no frio intenso, para ver Ratos de Porão, Nervosa, Forka e Bioface no Princípios Bar, no centro de São Bernardo, no ABC. Com ingressos na porta a R$ 50, o evento atraiu menos gente do que o esperado, mesmo em dia de jogo da Espanha contra o Uruguai pela Copa das Confederações.

O quase ex-produtor cultural pediu para não ter seu nome divulgado porque ainda tem alguns contratos a cumprir e teme represálias por suas posições, já que ainda não recebeu pela realização dos próximos eventos. “Hoje só é viável produzir cultura com razoável qualidade e alguma condição quando o poder público está envolvido, patrocinando ou organizando eventos. E estes geralmente são gratuitos. A galera acha que esse é o padrão. Não se incomoda em gastar R$ 300 para ver o Black Sabbath ou o Iron Maiden, mas se recusam a pagar R$ 50 para ver quatro bandas boas, uma delas o Ratos de Porão.”

A queixa tem a sua razão de ser. O Princípios Bar, na principal rua comercial de São Bernardo, teve público abaixo do esperado, e alguns incautos circulavam na rua, nas imediações, na tentativa de ouvir alguma coisa do som e tomar bebida alcoólica barata. “Jamais pagaria R$ 50 para ver banda nacional, seja quem for. É um roubo”, diz Renato Campos, office-boy de 20 anos que afirma gostar de rock pesado.

Já o auxiliar de escritório Carlos Henrique Medeiros, de 22 anos, teve disposição para sair da vizinha Santo André e ir ao Princípios, mas não entrou. “Vim encontrar os amigos e tomar uma pinga, mas não vou entrar. É ridículo pagar R$ 50 para ver uma banda velha e outras que nunca ouvi falar. Só vejo banda de graça, e ainda tem de ser muito boa“, fala com orgulho, provavelmente se referindo ao projeto Rock na Rua, da prefeitura de Santo André, que voltou com força em 2013, onde patrocina shows de rock ao vivo e gratuitos em alguns pontos da cidade, uma vez por mês.

“Todos nós nos desacostumamos a gostar de música”, sentencia Alexandre Barros Júnior, empresário de 30 anos e ex-guitarrista da banda Karpatos, de São Bernardo. Ele estava indeciso se entrava ou não para ver o minifestival. “Só me interessa o Ratos de Porão, mas teria interesse de ver as outras bandas se o evento não fosse terminar tão tarde.”

Barros afirmou que os músicos também têm culpa pela falta de interesse em artistas novos. “Nós nunca nos valorizamos como deveríamos, principalmente no rock e principalmente no heavy nacional. Nos anos 90 tinha gente que não tinha pudor em pagar para tocar em festivais grandes ou pequenos, ou mesmo para abrir shows de bandas internacionais de terceira categoria. Com o tempo teve gente que pagava até mesmo para abrir para bandas nacionais com algum nome. Essa concorrência predatória chegou aos barzinhos: bandas tocavam de graça em troca de espaço e, cúmulo do cúmulo, tinha banda pagando para tocar nos bares mais legais e mais concorridos. Ninguém pode reclamar hoje.”

O empresário diz que abandonou logo o sonho de tocar rock com sua banda de heavy/classic rock ao perceber que o público não tenha interesse em sua música e na dos colegas na mesma situação. “Minha banda durou pouco e fez poucos shows realmente dignos de nota. As apresentações eram caóticas, em locais cada vez mais fuleiros, sem apoio de ninguém, muito menos do público. As bandas, em vez de se ajudarem, brigavam por nacos e migalhas, para ver quem se sobressaía mais em um ambiente de caos e penúria. Desisti rápido disso, de tão enojado que fiquei. Vendi todo o equipamento e nem me lembro quando peguei em uma guitarra pela última vez. Não tenho saco nem mesmo para ensinar meu filho de 6 anos e meu sobrinho de 10 a tocar violão”.

Barros concorda com o produtor cultural desiludido sobre as “facilidades” imaginadas pelo público, mas enfatiza a culpa dos músicos pela situação ruim. “A era da internet trouxe mesmo uma cultura ruim de que tudo é fácil e de graça. Hoje só tem um pouco de atenção quem toca cover, e olhe lá. Por que os músicos deixaram que isso acontecesse? Porque não se valorizaram, queriam tocar de qualquer maneira, a qualquer custo e pisando em todos. Taí o resultado: o público ignora bandas novas e faz questão de ignorar, quer ouvir e ver de graça para ver se vale a pena, algum dia, voltar a ver essas bandas. Bato palmas para o Princípios Bar e para as bandas que estão tocando, mas o quadro é desolador, são idealistas que estão dando murro em ponta de faca.”

Beco estreito

Falta de originalidade, de qualidade, ingressos com preços altos, falta de estrutura e preferência por bandas internacionais estão entre os motivos apontados por espectadores e apreciadores de rock pesado para a fuga do público dos shows de grupos nacionais. As lamentações são muitas, mas infelizmente há poucas pessoas preocupadas em encontrar soluções ao menos amenizar os problemas.

Tem de ser respeitada a posição de alguns músicos que bradam “tocar de graça jamais”. É legítimo, afinal músico também é uma profissão e tocar custa, ou seja, quem toca e se apresenta ao vivo tem despesas para viabilizar o seu trabalho. É legítimo um instrumentista ser remunerado por sua arte.

O problema é a realidade está demolindo conceitos e princípios. Não é de hoje que o público se recusa a pagar R$ 50 para ver um minifestival com quatro boas bandas, como o que ocorreu no último domingo em São Bernardo. Não se trata de discutir ser o valor é alto ou baixo. Trata-se de constatar a realidade: o fã de rock brasileiro, em especial o de rock pesado, só sai de casa para ver “jogo com resultado garantido”. Isso quando sai de casa.

Muita gente adora criticar as bandas e o público em si e não hesita em cravar: o brasileiro não tem maturidade para gostar de música e apreciar arte.

Claro que há um evidente exagero, mas quem diz isso não está totalmente errado. O fá brasileiro de rock guarda semelhança com a maioria dos brasileiros que vão hoje a um estádio de futebol ver o seu time jogar: as pessoas não gostam realmente de futebol, gostam apenas de ver o seu time ganhar. Se isso não acontece, abandonam sem pestanejar os estádios, algo muito diferente do que ocorre na Argentina.

Tem gente que sugere algo parecido com o que ocorre na Suécia e na Finlândia, onde o governo banca a cena musical do país, em qualquer estilo. Uma grande insanidade defender esse tipo de coisa em um país que ainda precisa utilizar programas assistenciais (e assistencialistas) como o Bolsa Família para tirar parte da população da miséria absoluta – e que não consegue pagar aposentadorias dignas aos trabalhadores idosos.

Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia são países desenvolvidos, bem administrados e com relativa folga de caixa para investir na educação musical de seu povo. Segundo Andre Matos, ex-vocalista do Angra e do Shaman e que hoje mora na Suécia, os países escandinavos têm projetos educacionais que estimulam o ensino de música nas escolas.

A Finlândia, além disso, investe dinheiro do Estado no financiamento de festivais de rock, de equipamentos para as bandas e até mesmo, dependendo do caso, no aluguel de estúdios e na gravação de CDs. Há dinheiro público também para estimular a produção literária e de artes plásticas. E o que é melhor, tudo isso aprovado pelo Parlamento, sem intenções eleitoreiras ou demagógicas. Tudo está inserido dentro de um projeto educacional bem elaborado e aprovado pela sociedade. Uma realidade de outro planeta, na comparação com o Brasil.

Alemanha, Holanda e Inglaterra não têm nada parecido com o que existe na Escandinávia, mas existem programas específicos e projetos artísticos e educacionais específicos para o estímulo da arte, seja diretamente com dinheiro público ou por meio de incentivos fiscais a quem apoia. É por isso, entre outras coisas, que ainda existem cenas roqueiras bem interessantes naqueles países.

Não posso deixar de dar razão a quem afirma sem medo que as nossas deficiências educacionais nos impedem de formar grupos organizados e politizados, que ao menos consigam produzir conteúdo decente e criar uma cena – os recentes protestos contra o aumento de tarifas de transporte público e contra os gastos da Copa do Mundo são exemplos da bagunça e da falta de foco que reinam quando se organiza qualquer manifestação por aqui.

Tirando um breve período envolvendo os punks de São Paulo, nos anos 80, nunca houve de verdade qualquer cena musical neste país, muito menos entre os roqueiros. O metal nacional dos 80 em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte foram esporádicos e não sobreviveram à chegada dos anos 80.

Os medalhões logo seguiram seu caminho e nunca fizeram questão de apoiar e fomentar uma cena – é clássica a passagem do documentário “Ruído das Minas”, sobre o rock pesado mineiro, onde Max Cavalera comenta, lá nos anos 90, que existia somente o Sepultura no heavy metal nacional, e nada mais, quando perguntado por um repórter estrangeiro se havia uma cena importante do metal brasileiro.

Está claro que quem gosta de rock no Brasil hoje e que tem algum interesse em bandas nacionais de matal não está disposto a pagar por CDs e por shows. Portanto, é necessário rever os custos e os preços cobrados para começar a atrair novamente o público.

R$ 50 para ver quatro bandas, entre elas a excelente Ratos de Porão e a emergente Nervosa, não é caro, pelo contrário. Mas parte expressiva do público acha que é. Será que é viável fazer rock no Brasil com custos mais baixos do que estes? Será que as bandas terão de voltar a se apresentar de graça, sem ganhar nada, para ter alguns minutos de atenção?

Portal do Inferno

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