
– O que significa trabalhar com música underground, para você?
Mano Joker: Amor e desafio cara. Amor e desafio . Tipo entrar numa mata fechada ou no mar, é um desafio fascinante e perigoso ao qual me propus quarenta anos atrás. Eu nunca vou indicar algo assim pra ninguém pois já vi de tudo nesses anos e não creio em verdades absolutas. Essa trilha pode te trazer vida, pode te fazer encontrar seu lugar no mundo, trazer um encontro com o seu eu real, definitivamente . Mas também pode te enlouquecer e te consumir, ou simplesmente te fazer perder tempo. Felizmente comigo aconteceu a primeira situação, mesmo estando nas esburacadas estradas do underground terceiro mundista tem valido à pena e assim sigo em frente no Uganga.
– “Ganeshu” é o seu último álbum, como ele vem sendo recebido pela imprensa que já teve acesso a ele?
Manu Joker: A recepção ao nosso trabalho mais recente realmente está muito boa, todo mundo fala isso eu sei, mas ao mesmo tempo está aí pra geral conferir. Eu só vi resenhas positivas, e já saíram várias. Entramos em várias listas de melhores do ano, o play vem recebendo notas altas e gerando análises interessantes de pessoas legais e com gostos variados. Falar isso aqui nada tem a ver com ego, não é caô pra vender seja lá o que for, é trabalho árduo sendo reconhecido. Nós realmente acreditamos que lançamos um álbum poderoso.
– Quais as principais diferenças que você enxerga em “Ganeshu” com relação aos trabalhos que saíram antes dele?
Manu Joker: A principal é que o núcleo de duas duplas de irmãos, que foi a base dessa banda do primeiro álbum “Atitude Lotus” (2002) até o “Libre!” (2022), não estava mais lá na hora que começamos a criar “Ganeshu”. Esse núcleo era composto por mim, meu irmão Marco Henriques (bateria) e os irmãos Christian e Raphael Franco (respectivamente guitarra e baixo). Esses 4 estão nos 7 primeiro álbuns de estúdio, no ao vivo gravado na Alemanha e no DVD/Documentário “Manifesto Cerrado”. Grande parte desses trabalhos contaram também com Thiago Soraggi na outra guitarra e essa formação talvez seja a mais lembrada pelas pessoas, apesar de que outros músicos importantes passaram pelo Uganga nesses 32 anos. Ganeshu representa um novo momento nosso, com novos elementos musicais aliados às antigas referências. Somos uma nova banda, mas ao mesmo tempo a mesma banda sacou (risos)? O barco segue seu curso e do começo da viagem até aqui só eu permaneci. A formação atual é forte, está unida e vai escrever outros capítulos dessa saga insana.
– “Ganeshu” possui músicas muito fortes! Quais as suas expectativas do disco com relação aos fãs?
Manu Joker: Obrigado pelas palavras. Antes de tudo queremos tocar o máximo possível e obter as mínimas condições necessárias para isso. No palco, quando soa o primeiro acorde, estamos em casa. Nessa hora a gente mostra do que é feita essa banda, sem depender de hype, algoritmos ou seja lá o que for. Não me entenda errado, sei que algumas ações são essenciais para a sobrevivência de uma banda, fato. E é óbvio que sempre buscamos crescer, aumentar nosso público e obter melhores condições. Isso é parte do jogo. Mas a nossa essência antes de tudo é compor, subir no palco e tocar. Talvez sejamos uma espécie em extinção (risos). Gostaria também de lançar esse trabalho no exterior, talvez em vinil, e poder fazer uma terceira tour internacional para promovê-lo. Veremos o que acontece.
– A arte da capa foi assinada por qual profissional? Qual o significado dela?
Manu Joker: A arte gráfica ficou a cargo do Artur Fontenelle da Deadmouse Design e o cara mandou muito bem. O significado vem de uma entidade fictícia que criei e que funde as figuras de Ganesha e Exu. Duas figuras que apesar de virem de mundos muito diferentes tem várias similaridades, dois “malditos” que removem os malditos obstáculos (risos). É também uma provocação aos fanáticos nojentos que não respeitam o contraditório, muito menos o diferente que eles não entendem.
– O que você pode nos falar sobre a pós produção do disco? Como se deram a mixagem e masterização dele?
Manu Joker: Mais uma vez gravamos o álbum no Rocklab Studio (Anápolis – GO) com o mestre Gustavo Vazquez. Nós dividimos a produção, eu cuido da fase de pré-produção, ele grava, mixa e masteriza. Temos um ótimo entendimento, trocamos bastante ideia sobre tudo e trabalhamos sem ego, com um reconhecendo a importância do outro nesse nosso processo. Dessa vez a opção foi gravar todo o instrumental ao vivo, com uma voz só fazendo a guia, e acrescentar depois todos os vocais, dobras de guitarra, solos, samplers e percussão. Essa ideia foi do Gustavo e eu achei que foi flecha no alvo, “Ganeshu” é o mais próximo do que a banda soa ao vivo entre todos os ítens da nossa discografia e eu amo a sonoridade que conseguimos.
– “Ganeshu” ganhará uma tiragem limitada em CD? Existem planos para uma produção em maior escala neste sentido?
Manu Joker: Sim, inicialmente vamos prensar 500 cópias em CD, encarte com várias páginas contendo uma arte gráfica muito foda, também feita pelo Artur Fontenelle, com todas as informações etc… Todos nossos trabalhos saíram em formato físico e não pode ser diferente com esse que considero nosso melhor álbum.
– Como tem sido os shows desta fase da sua carreira? O público está conseguindo assimilar as músicas do álbum?
Manu Joker: Eu acredito que sim, tenho visto um público variado nos shows, velha escola, nova escola, diferentes gêneros e raízes, pessoas cantando as letras, e acho isso muito animador. Nós honramos nosso passado, que é mais velho até que alguns dos integrantes atuais, mas miramos sempre no futuro. Acho triste bandas que passam a vida tentando reviver determinado momento e ficam estagnadas. Penso que a vida passa muito rápido pra fazer isso.
– Imagino que foi desafiador escrever esse disco. Rolou alguma pressão da gravadora para que chegassem em um nível específico?
Manu Joker: Nenhuma, até porque não havia gravadora alguma quando iniciamos esse processo (risos). “Ganeshu” antes de tudo é um documento de uma banda que buscava somente sobreviver quando começamos a compor. Nos reinventamos e agora estamos indo para outro lugar. Ele é um disco de transição na nossa carreira, assim como foi o “Vol 3: Caos Carma Conceito” (2010), o portal de uma nova fase.
– Obrigado pelo tempo concedido a nós do Portal do Inferno. Mandem notícias da cena da sua cidade, por gentileza…
Manu Joker: Somos da região do Triângulo Mineiro, temos uma cena forte por aqui, bandas incríveis, selos independentes, casas interessadas em música autoral pesada e pessoas que colam nos rolês para conferir essas bandas. Passando por aqui apareçam para um café com pão de queijo.
