Atitude e resistência. Assim podemos começar a falar sobre a festa de comemoração dos 5 anos da Abraxas, selo/produtora que trouxe um gás novo a cena alternativa no Brasil. Sempre apostando na contramão do mercado, buscando o oasis da psicodelia onde o fuzz da guitarra soa alto e imponente. Viva São Thomé das Letras!! 
Fotos: Drico Galdino
O Abraxas Fest 2018 foi divido em duas noites, nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Os paulistanos tiveram a sorte de conferir a primeira noite. O local escolhido foi o Fabrique, na região da Barra Funda, que acolheu bem o público presente enchendo a casa mas tendo espaços para circular. A versão Sampa do festival teve bandas nacionais diferentes, aqui tocaram Noala e Into The Dust.
 
Noala é aquela típica banda que você tenta rotular mas acaba sendo impossível. Flutuando numa praia Neurosis/Sludge Metal pra fritão. A sonoridade visceral encontra na agonia, dor e angústia um espaço para expressão e reflexões existenciais.  Na estrada desde 2009 a banda vem fazendo barulho no underground, tocando em várias casas e saindo na imprensa algumas vezes. A banda lançou neste ano seu segundo disco, o autointitulado “Noala”.
Fotos: Drico Galdino

Já o Into The Dust é oriundo da região de Brasilia e toca um doom metal casca grossa ao melhor estilo Candlemass/Trouble/Cathedral cantado em português. Eles acabaram de lançar seu segundo EP chamado “I.T.D.” mandando ver no som autoral e acreditando que é possível fazer esse tipo de música no Brasil.

As duas bandas souberam aproveitar a oportunidade e fizeram shows com bastante competência e dedicação apontando que a distância do que é produzido no exterior e o que é criado aqui fica cada vez menor. Quanto mais rodagem e público as bandas nacionais tiverem, mais aumenta o mercado e a procura por shows, tendo novas casas e produtores interessados em trabalhar com esse nicho. O mercado de música autoral está super aquecido e o selo da Abraxas acompanha de perto este fenômeno. E quem apostou que a psicodelia era um bom modelo de negócio foi a próxima atração.

Samsara Blues Experiment

Fotos: Drico Galdino

O psicodélico power-trio alemão retornou ao Brasil desta vez para tocar em um festival.  Podemos dizer que eles soam como um Cream alemão mais psicodélico e espacial.

As músicas do Samsara Blues Experiment são longas, normalmente passando dos 10 minutos,  como a faixa escolhida para abrir o show “Shringara” do disco “Waiting For The Flood” de 2013. A introdução é quase um mantra que encaixa perfeitamente a voz grave do vocalista Christian Peters e te direciona diretamente para o espaço enquanto a bateria de Thomas Vedder e o baixo do Richard Behrens pulsam firmes de forma repetitiva afim de criar um loop eterno trazendo um estado de transe coletivo.
Fotos: Drico Galdino

O primeiro disco da banda “Long Distance Trip” de 2010 é um clássico da psicodélica rocker moderna. Desse disco eles tocaram a  instrumental Stoner pesadona  “Army of Ignorance” e a cósmica “Center Of The Sun” com guitarras cheias de efeitos espaciais soando como um sopro dentro do espaço sideral.

Com mais de uma década de estrada, os alemães tem apresentações sólidas que parecem uma grande jam session de uma hora sem parar. Após as palmas finais do show, era nítida a cara do público incrédulo tentando voltar pra vida.  O que foi impossível de fazer já que a noite tinha tudo para ser histórica, e foi.
Fotos: Drico Galdino

Eyehategod

Direto de New Orleans, a banda americana criadora do Sludge Metal, o grande Eyehategod!!Pela primeira vez, os brasileiros tiveram a oportunidade de ver essa instituição da bagaceira ao vivo. Jimmy Bower, Mike Willians e seus capangas fizeram aquilo que todos esperavam: muita sujeira!
Como uma noite em uma garagem qualquer, a banda subiu ao palco para passar o som e quando tudo estava acertado, eles apenas começaram o show. Sem enrolação ou frescura. Curtindo estar no Brasil, todos tocaram sorrindo e interagindo com o público arremessando água, mostrando o dedo do meio ou simplesmente distribuindo sorrisos.
Fotos: Drico Galdino
Com mais de trinta anos de estrada e muitos discos lançados, a banda optou por diversificar o setlist tocando um pouco de cada fase, com destaque para o álbum de 1996  “Take as Needed for Pain”  que teve cinco músicas tocadas. A banda abriu o show com “Agitation! Propaganda” seguidas por “Jack Ass in the Will of God” e “Parish Motel Sickness”.
Cantando com uma performance doentia, a lenda Mike Willians torceu o cérebro de todos os presentes com seu jeito lunático de cantar. Dono de uma voz esganiçada feitas sob o uso de muito álcool, cigarro e substâncias tóxicas, o vocalista conduziu a bateção de cabeça e a pancadaria rolou solta. Socos e pontapés estavam liberados para curtição total.  
A dobradinha anos 90 “Sisterfucker(Part I)” com sua gritaria e a arrastada “Sisterfucker(Part II)” apresentam o auge criativo da banda que trouxe na época um jeito diferente de fazer rock pesado de garagem pós-grunge. O baterista Aaron Hill e o baixista Gary Mader detonaram seus instrumentos de tanto socá-los na clássica “$30 Bag”.

O caminhão de riff’s que guia o som do Eyehategod é tocado por uma guitarra de… CINCO cordas! O dono dessa afronta é o senhor Jimmy Bower. Pensa em um cara que sabe fazer riff… vezes mil. Só assim pra entender o quão criativo ele é. Variando apenas numa gama quadrada de acordes, ele encontra melodias precisas e hipnóticas extremamente cativantes. Do álbum “Dopesick” de 1996, tocaram adoentia “Dixie Whiskey” e a ácida “Lack of Almost Everything” mas deixaram o melhor pra parte final onde tocaram “Left to Starve”.

Fotos: Drico Galdino

 

Assim terminou uma noite maravilhosa promovida pelos guerreiros cariocas da Abraxas e sua equipe que comemoraram cinco anos em alto estilo. Vida longa ao underground!