Overload Music Fest – Via Marquês – São Paulo/SP

Em um sentido amplo, a música é a arte de combinar sons e silêncio, ritmos e melodias. Combinação a qual afeta as pessoas, seja com indiferença ou levando-as a uma catarse, aquele momento de purificação, de purgação que um humano atinge após um impacto emocional forte. 

Para muitos dos presentes na última noite do Overload Music Fest, isso ocorreu em algum instante com alguma música executada ali. Desde que foi anunciado, o evento veio carregado de expectativa e ansiedade por trazer um dos grupos mais aguardados pelo público brasileiro, o Alcest, assim como a surpresa do Swallow The Sun e God Is An Astronaut, além do retorno do Fates Warning ao País.

Labirinto

A honra de abrir essa noite ficou com os brasileiros do Labirinto que, pontualmente, subiram ao palco. Ainda que muitas pessoas estivessem chegando aos poucos no local, o Via Marquês já contava com uma plateia considerável que foi conquistada sem dificuldade, rendendo elogios que puderam ser ouvidos durante a apresentação. Com certeza, os músicos encerraram seu set com uma nova leva de fãs ávidos por conhecer mais do material composto e por uma nova chance de vê-los em um set completo.

Entre os shows das bandas, o público lotou o balcão de merchandising em busca de itens. Além de CDs e camisetas, havia um belo poster promocional que a banda Alcest criou para essa turnê. Item que muitos autografaram em outro momento da noite quando os músicos atenderam aos fãs durante a performance da última banda.

Swallow The Sun

Segunda atração da noite, o Swallow The Sun iniciou seu set com um quase quinze minutos de atraso. Pela primeira vez no País, os finlandeses trouxeram um repertório equilibrado em sua discografia, já que seu último disco, Emerald Forest And The Blackbird, é de dois anos atrás, o que evita uma grande quantidade de material recente para divulgação, como costuma ocorrer.

Vestindo uma camiseta inspirada pela cultuada série Twin Peaks, o vocalista Mikko Kotamäki demonstrou sua boa capacidade em alternar diferentes vocais nas canções, enquanto os demais músicos executavam faixas como Deadly Nightshade ou Night Will Forgive Us de forma energética, demonstrando grande animação por estar pela primeira vez no Brasil e sendo bem recebidos pela plateia brasileira. Mesmo com alguns problemas com a equalização de seu som, que foi melhorando no decorrer do set, mas sem ficar perfeito, o grupo não teve sua apresentação prejudicada de forma grave.

Fates Warning
Acumulando o atraso, meia hora após o programado, foi a vez do Fates Warning retornar a São Paulo. A primeira apresentação do grupo norte-americano ocorreu pouco mais de dois anos atrás, apesar da banda ter mais de 30 anos de carreira. Mesmo que para muitos a banda parecesse deslocada entre o cast do festival, boa parte dos presentes estava ali para conferi-los, fato também demonstrado nas interações com o vocalista Ray Adler em alguns momentos.

Se o atraso serviu para acertar o som, o grupo o fez com perfeição e, sem problemas, executou um set que deu destaque para o clássico disco Parallels e o inspirado A Pleasant Shade of Gray,com o restante das músicas fazendo um apanhado de toda a discografia lançada. Com uma hora de apresentação, essa foi uma decisão que agradou bem e que não deixou a qualidade da noite cair. Dessa vez, o grupo veio com o baterista Bobby Jarzombek, que no primeiro show do Fates Warning aqui, em 2012, havia sido substituído naquela noite por Mike Portnoy devido a compromissos profissionais.

Antes da atração mais esperada por muitos na noite, o público teve de esperar por uma hora antes que o Alcest fizesse sua estreia em solo paulista. Os problemas no som podem ter tirado um pouco do brilho da apresentação, mas a ansiedade e a paixão do público pelo grupo superou isso em uma hora de show, que contou com faixas de todos os discos como Autre Temps e Les Iris,além de Délivrance,que encerrou o set.

Com um “obrigado” em português,  Neige agradeceu a presença de todos e a chance de finalmente poder tocar no Brasil e em seu rosto e no do guitarrista Zero era possível ver a satisfação ao ver a demonstração de receptividade dos brasileiros que, finalmente, puderam vê-los ao vivo e já pedem uma turnê solo por aqui o mais breve possível. Mesmo que a essa hora da noite o cansaço já começasse a ser sentido por alguns, a música do Alcest foi capaz de fazer com que isso fosse esquecido, deixando muitos em um estado de catarse após tal ato. Todo o hype em torno do grupo se justificou ali, mesmo com o tempo reduzido por conta de ser um festival.

Ao fim da apresentação do Alcest, parte do público acabou indo embora, deixando de conferir o que surpreendentemente foi a apresentação mais enérgica da noite. Além de perder a oportunidade de encontrar com os músicos que ao longo do set do God Is An Astronaut atenderam diversos fãs pacientemente.

Devido aos atrasos acumulados e da maratona de shows que foi esgotando tanto física quanto emocionalmente (no bom sentido) o público, passava das 3h15 da manhã quando os músicos do God Is An Astronaut surgiram atrás  da cortina dizendo a todos que era “hora de acordar”. A plateia, que se encontrava em boa parte sentada na pista, levantou-se rapidamente aos primeiros acordes de When Everything Dies.

Dali em diante, o grupo mostrou uma absurda energia em cima do palco, não parando de se movimentar e interagir com os presentes, chegando, inclusive, a descer até a grade por um breve momento. Mesmo que suas músicas sejam instrumentais, suas melodias foram capazes de prender e empolgar o público sem dificuldades, até aqueles que desconheciam os irlandeses e continuaram por ali na madrugada. Na lista de músicas, destaque ao mais recente disco, Origins (2013) e ao segundo lançamento do grupo, o belo All Is Violent, All Is Bright (2005) que preencheram quase todo o setlist com muitas faixas soando muito mais fortes ao vivo.

Pode-se dizer que um show do God Is An Astronaut é uma experiência obrigatória a qualquer fã do estilo, devido à sua qualidade e ao talento dos músicos, que foram levemente traídos pelo sistema de PA da casa, que não aguentou a potência da apresentação, uma hora e meia depois de começar, apagando durante Red Moon Lagoon. No momento, muitos pensaram que a casa havia cortado o som da banda em função do horário, mas os músicos voltaram ao palco e pediram desculpas, justificando que som não aguentou. Eles aproveitaram, então, para atender os fãs na grade com um músico chamando o outro, para que ninguém ficasse sem autógrafos em algum material solicitado.

Mesmo com os contratempos técnicos do som, o saldo final do festival é positivo. Primeiro, pela iniciativa de trazer bandas sem passagem pelo País e de estilos que normalmente são desprezados pelos produtores locais como o post-rock e o shoegaze. A ideia de juntá-los em uma noite com outros sons, como o metal progressivo, se mostrou excelente, com um público respeitando esse fato e demonstrando que há interesse por parte dele em bandas dessas vertentes. Outro ponto positivo foi a escolha do horário, já que ao estender o festival até as cinco da manhã, permitiu que o público, ao sair, já encontrasse o transporte público funcionando, sem ter de ficar esperando na rua.

E no momento que essa resenha vai ao ar, a produtora Overload já anunciou que iniciou conversas com dois grupos para o ano que vem. Agora é esperar e torcer pela segunda edição desse festival que tem tudo para crescer.

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