No norte de Angola, o povo Bantu cultua a lenda que há um demônio que possui dupla-face. A frontal, bonita e atraente é semelhante ao de um ser humano, e a das costas, é o rosto de uma hiena.  Esse ser atrai uma vítima, através de sua beleza e quando a conquista mostra a sua verdadeira face (hiena) e começa a devorá-la. As mandíbulas são tão fortes que só uma intervenção divina, pode evitar uma catástrofe. O nome da criatura é Kishi e foi essa a inspiração que fez quatro amigos de Angola, batizarem sua banda.

Da esq. à dir: Yanick, Manel, Hugo e Bruno. Divulgação/Kishi

O grupo oriundo da capital Luanda vem chamando a atenção desde o lançamento do primeiro álbum intitulado: ’Depois da meia-noite’, que ficou pronto no final de 2018.  Em 27 minutos e meio, entre 8 músicas, há canções que contam lendas de tribos angolanas espalhadas pelo país, lendas urbanas e o espírito rock ‘n roll, com muita festa, bebidas e cigarros. O som nos remete a um doom metal, que se assemelha a Moonspell e Opeth em alguns momentos. Um Stoner Metal como a banda gosta de classificar. Uma das músicas, Get Stoned, irá concorrer ao Angola Music Award 2020.

Compõem o grupo, os amigos de infância , Bruno Braz (guitarra) e Hugo Domingos (baixo), Manoel Campos, conhecido, como Manel Kavalera, nos vocais e Yanick Merino na bateria.

Há vários séculos, Angola e Portugal possuem laços culturais, com várias imigrações tanto de um lado quanto do outro. Manel, Bruno e Hugo são nascidos em Portugal, mas foram crianças ao país africano e se consideram angolanos.  Foi com o trio que o Portal do Inferno conversou sobre a banda, projetos e o heavy metal naquele continente. Há histórias divertidas como a viagem à Botsuana, onde passaram por algumas emboscadas, e tiveram situações cômicas com autoridades locais, além da doença do beijo. Também mostraram o quão a cultura brasileira influência os angolanos e que conhecem tudo que é tipo de banda brasileira: do funk ao heavy metal.

Confira:

1) Primeiramente, digam como começaram a vida no rock/ heavy metal e como surgiu a banda?

Manel Kavalera: Eu comecei a ouvir com 6 anos de idade, por influência da minha irmã e da minha tia. Naquela época, eu ainda morava em Portugal e havia um programa de heavy metal na televisão que era comandado por Antônio Freitas (uma referência no metal lusitano) e ali eu comecei a ouvir e curtir muitas bandas. Depois, já em Angola, eu comecei a organizar eventos e trabalhar em rádios, divulgando o estilo. Em Luanda, existia o Kings Club, que era o ‘coração’ do heavy metal angolano e lá eu fiz amizade com o dono. Depois de um tempo, eu organizava a playlist das festas do clube e uma vez ele me disse que todo DJ tinha um nome artístico e queria saber qual era o meu. Eu, na época, ouvia muito o Sepultura e por conta disso, passei a usar o Manel Kavalera. Este em homenagem ao Max. Eu gosto muito da fase antiga do Sepultura, principalmente o Beneath the Remains e o Chaos A.D. Naquela época, eu trabalhava nas rádios e  em organização de shows e não me via como vocalista de banda. Se tivesse feito isso desde o início, eu não teria usado o sobrenome do Max para me promover (risos). Um dia espero encontrá-lo e falar de toda a influência dele no meu gosto musical.

Sobre o surgimento do grupo, eu sempre encontrava o Bruno nesses festivais e ficamos bastante próximos. Após, os shows, muitas vezes passava das 5, 6 horas da manhã, todo mundo indo embora e a gente lá conversando, bebendo e ouvindo som. Até que uma vez combinamos de fazer um som e ele conhecia o Hugo. Lembro que na época que o vi, ele tinha cabelo comprido e parecia o Zakk Wylde (risos).Faltava só um baterista. Foi aí que eu lembrei do Yanick, que é um músico conhecido no meio e que já tinha tido outras bandas e quando vimos, já estávamos ensaiando, compondo e gravando um álbum.

Hugo Domingos: Eu desde pequeno gosto de música e escuto vários estilos. Com 12 anos comecei a tocar violão na única escola de música que havia em Luanda,na época. Depois, migrei para a guitarra e tive bandas aonde fui guitarrista, enquanto o Bruno era o baixista. Nessa atual, invertemos os papéis (risos). Eu sempre com o Bruno, ouvíamos música e para mim, quando conheci Scorpions, Iron Maiden e Dream Theater, foi onde o ‘bichinho da música me mordeu’ e me fez ver que isso era a minha paixão.

Bruno Braz: Meu pai ouvia rock e eu criança lembro que ele estava escutando ‘Smells Like Teen Spirit’ do Nirvana e eu perguntei o que era e ele me falou que eram uns jovens que estavam começando a fazer sucesso. Nesse contato com o rock, o que mais me chamou a atenção foi aos 13 anos, quando ouvi Angel of Death, do Slayer. Foi diferente naquela hora.

2) Como foi a gravação do ‘Depois da meia-noite’ e a recepção do público?

Manel Cavalera: Aqui em Angola ainda há muito preconceito do público em relação ao rock e heavy metal. Quando vamos a programas de TV e de rádio, ainda perguntam se estamos envolvidos com bruxarias, por exemplo. Então, temos que mostrar que o rock não é isso e se aborda vários assuntos.

A recepção do público tem sido muito legal. Já fomos mencionados no exterior, como na Rússia, por exemplo, e tocamos em Namíbia e Botsuana, o que evidencia um bom retorno.

 

Hugo: Primeiramente, lançamos 3 músicas e como o nosso som é mais Doom Metal, algo difícil de se fazer aqui, a reação foi de estranhamento. Lembro que em um programa de rádio um apresentador nos questionou o motivo de fazer músicas nesse estilo, pois, ninguém escuta isso e não iríamos vender. Entretanto, puxamos o nosso som pro Stoner Metal e sabíamos que existia um público que ouve esse tipo de som. Em breve, mais bandas irão surgir nessa pegada.

 

Bruno : Lembro que certa vez em um programa de TV, o apresentador nos viu e disse: ‘ Mas vocês têm um estilo muito comum para uma banda de rock’ (risos). Fora isso, temos tido muita sorte até o momento, pois, temos dado bastante entrevistas e inclusive, fora de nossas fronteiras. Temos recebidos muitos elogios por parte dos brasileiros e isso tem sido bem positivo. Não lembro de uma banda de rock em Angola ter chegado tão longe.

 

Hugo: Sobre a gravação, foi tudo natural e espontâneo. Ficávamos horas e horas ensaiando e nem víamos o tempo passar. Inclusive, gravamos todos os instrumentos juntos. Foi meio difícil juntar tudo no estúdio, pois, não era tão simples, devido a estrutura pequena (risos). Mas deu certo. Depois, precisávamos de alguém para a produção final do álbum e conseguimos uma pessoa que levou até os Estados Unidos para masterizar e finalizar o álbum.

Bruno: Em geral, as bandas saem de suas casas e vão direto ao estúdio gravar e ensaiar. Nós não. Primeiro, vamos ao supermercado compramos cervejas e depois vamos ao estúdio. Isso, mostra que somos uma banda de amigos e que fazemos o som de forma pura e não meramente comercial. Passamos a nossa alma nas músicas.

 

3) Há músicas em português e em inglês no álbum. Como foi a escolha para fazer certas músicas em um idioma e outras em outro?

Hugo: Para ser sincero, nem foi algo pensado: ‘ isso vai ser em português, isso em inglês, por exemplo’. Foi algo natural.

Bruno: Na verdade, pensávamos mais em que histórias nós iríamos colocar e não, necessariamente, em que idioma. O nosso foco foi explorar mais os temas e queríamos fazer algo que os nórdicos fazem com as suas lendas, mas contar as nossas lendas para o mundo.

4) Além do nome Kishi (que também é uma música), que outras músicas há com lendas do povo angolano?

Manel: Kianda, nossa última música do álbum, é uma lenda mais divulgada ainda que Kishi. Ela é uma sereia gananciosa e má, que de tempos em tempos aparece pedindo oferenda aos pescadores, e estes são obrigados a acatar seus pedidos, senão eles morrem. Como curiosidade, essa canção foi a nossa indicada a categoria ‘rock’ do Angola Music Award de 2020, entretanto, eles acharam ela muito dark para a premiação e nos pediram outra. Aí, escolhemos Get Stoned, que é algo com um ritmo mais leve. A letra é sobre uma pessoa que sabe que irá morrer, mas conversa com a ‘Morte’ e pede para ficar mais um tempo, pois, ainda tem coisas para realizar em vida.

 

Outra música que destaco é ‘Pina’, que se tornou uma lenda urbana em Luanda, em um tempo em que não havia redes sociais. Na década de 90, o Pina estava em uma festa e se envolveu em uma briga. Durante o combate, acertou uma garrafa no seu oponente e um dos cacos pegou na jugular da vítima, que acabou falecendo.  O caso é terrível, mas naquela época, as pessoas começaram a tratá-lo como um serial killer. Diziam que ele fazia várias vitimas na cidade.  Que ele capturava as pessoas e as matava. Houve um certo pânico. A polícia precisou ir até a mídia informar que ele estava preso e havia cometido apenas um crime. O curioso é que depois descobrimos que o cara segue encarcerado e é primo do nosso baterista (risos).

5)Há alguma chance de vocês ganharem o Angola Music Awards?

Manel: Muito difícil. O mais importante é participar e divulgar a banda.

Banda se apresentando em um show. Imagem: divulgação.

6) Como foram os shows em Namíbia e Botsuana? Já tocaram em outros países?

Manel: 2019 foi o melhor ano para a minha vida e foi o melhor para a banda. Nós tocamos no Winter Metal Fest, em Botsuana. Foi um evento beneficente, com o intuito de ajudar os mais pobres daquela nação. Lá fiquei muito surpreso com a cena forte de heavy metal. Surpreende. Quem curte metal, um dia tem que ir à Botsuana. Um país muito pobre em economia, mas muito rico em atitude.

Bruno: Percebemos que na mesma época, um pouco antes, ia ter um festival na Namíbia e vimos que algumas bandas que iam tocar em Botsuana, iam participar deste festival também. Logo, conversamos com algumas bandas e entramos em contato com a organização e conseguimos nos inscrever.  Fomos por via terrestre mesmo, e na Namíbia ocorreu tudo normal, exceto o fato de que meu pescoço começou a inchar e incomodar.

Manel: Na Namíbia existia uma certa organização e nos alertaram que em Botsuana, que é vizinho, não é igual. Nós levamos bebidas, cigarros e maconha. Nos disseram que em Botsuana maconha dá pena de morte!! Logo, jogamos fora. Na fronteira, fomos parados por policiais que perguntaram de onde éramos e para onde íamos. Eles acharam que íamos fazer contrabando com os instrumentos. Tivemos que ligar para o organizador do evento, que por sorte era policial também, que conseguiu explicar a nossa ida ao evento beneficente, diga-se de passagem, e fomos liberados.

Bruno: Foi muito difícil chegar em Ghanzi (que fica no interior,pois a capital Gaborone fica a 653 km de distância) e era em um lugar muito difícil de encontrar. Quando chegamos, tinha uma mulher alta e forte que nos perguntou de onde éramos e falamos de Angola. Eis, que ela vira e pergunta: ‘ É verdade que em Angola, os homens têm saco grande?’ E de repente, colocou a mão no meu saco!  Foi estranho aquilo e ninguém entendeu nada (risos de todos).

Se apresentar foi complicado do ponto de vista da produção. O palco não oferecia estrutura necessária para a banda, a bateria era muito básica e o retorno do som para os músicos era péssimo, quase não se escutava. Mas a energia do público foi muito boa e no final eles pediam bis e para a gente seguir tocando.

Manel: Algumas pessoas vieram falar com a gente depois do show e falaram que curtiram muito a banda. Depois, eu percebi que havia um pessoal em um canto fumando maconha. E eu fui lá. Pedi para fumar junto. Eis que depois eu escuto o som da polícia. Nessa hora eu pensei: ‘ Morri’. Aí perguntei para os outros que estavam comigo se era verdade que maconha dava pena de morte e eles disseram que não, que isso era na década de 80. Hoje ‘só’ vai preso. A polícia acabou não fazendo nada e nem encanou com drogas. Logo depois, me empolguei, chamei o Hugo e avisei que isso não era mais verdade (risos).

Bruno: Sobre a dor no pescoço, eu senti isso também na hora do show e fiquei mal. Depois do show fui ao banheiro, pois, estava bem mal. Me examinaram e fui até um hospital, mas não sabiam o que eu tinha. Isso persistiu por uns dois meses, até que um médico finalmente descobriu que eu estava com a doença do beijo. É um nome estranho para doença ( obs: a doença tem o mesmo contágio do vírus da herpes e se dá através de salivas).

Hugo: Eu e o Bruno, já viajamos para outros países, quando tínhamos uma outra banda (M’vula). Fomos para o Congo, Moçambique, Mali, Gabão e Senegal. Nesses lugares, a situação é muito difícil e praticamente não há bandas de rock. Senegal mesmo, eu conheci um cara que falou para a gente que nunca tinha visto uma banda de rock antes. E é um país muito rico em cultura. Nos outros locais, uma ou outra banda de adolescentes, mas que não tinham tanto material e nem oportunidade para tocar. Em geral, as bandas da África ainda se concentram mais ao norte do continente, em países como Egito, Argélia e Tunísia, por exemplo.

Manel: Aqui sempre fazemos exceção a África do Sul, pois, eles possuem uma estrutura acima da média em relação aos outros países e as bandas têm condições similares a de países europeus.

7) Quais bandas brasileiras de rock e heavy metal vocês gostam?

Hugo Domingos: A música brasileira tem uma influencia muito grande na cultura angolana. Então, conhecemos muitas canções e de vários estilos. No Heavy Metal, eu gosto do Angra. Eu sempre fui muito fã do Kiko Loureiro, que agora está no Megadeth. Uma referência para mim.

Quando eu era mais novo, eu ouvia Gabriel ‘O Pensador’ e Raimundos.

Bruno Braz: Eu quando mais novo ouvia Charlie Brown Jr. e Raimundos. Conheço todas as músicas do Charlie Brown e as antigas dos Raimundos.

Manel:  Krisiun!!! Krisiun!! Adoro Krisiun! Uma história curiosa que tenho com a música brasileira é em relação ao grupo Mamonas Assassinas. Certa vez, eu estava com a família de férias em Portugal. Estávamos caminhando por um lugar que havia várias cafeterias, confeitarias e derivados. No meio disso,havia um lugar que vendia discos e fitas K-7. E eu vi a capa do álbum dos Mamonas Assassinas, que tinha como destaque peitos! Achei incrível aquilo e pedi para o meu pai comprar. Meu pai falou que eu não conhecia o som e eu falei que só queria pela capa mesmo (risos). No mesmo dia eu ouvi e conheci o som. Curti muito. Depois, liguei a TV e estavam falando da morte deles. Da queda do avião. Hoje digo que conheci a banda no dia que eles morreram.

8) Por fim, quais planos há para a Kishi e pensam em um dia tocar no Brasil?

Hugo: Muitas bandas angolanas lançam apenas um álbum e depois param. Isso se deve ao fato do ego de cada integrante falar mais alto, aliado ao desgaste da convivência que gera crise no ambiente de um grupo. Também há o fator que não se vive de rock em Angola, logo, as pessoas precisam trabalhar e ganhar dinheiro. Então, o tempo de sobra para os ensaios são apenas a noite. E muitas vezes depois de um dia cheio e um trânsito caótico de cidade grande. Isso desestimula.

Nós somos muito unidos e queremos lançar um segundo álbum em breve, para poder dar sequência ao nosso projeto.

Bruno: Há muitos brasileiros, de várias partes, que nos escreveram e seria muito bom poder tocar um dia ai. Não conhecemos o Brasil, mas temos muita vontade. Se puder nos ajude nessa (risos).

Manel: Muitas pessoas gostam de investir dinheiro em pesca, outros em golfe e eu gosto de investir no rock. Minha paixão. Eu tenho vontade de conhecer não só o Brasil, mas o mundo todo!

Leonardo Cantarelli

Headbanger, jornalista formado, autor de 2 livros e mesatenista!

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