O Almah rapidamente conquistou o seu lugar entre as grandes bandas de metal do Brasil. Em cinco anos de carreira e após três álbuns de estúdio, Edu Falaschi (vocal), Marcelo Barbosa (guitarra), Felipe Andreoli (baixo), Marcelo Moreira (bateria) e Paulo Schroeber (guitarra) – que está afastado por recomendações médicas, e foi substituído na turnê por Ian Bemolator, do Dark Avenger – descobriram a personalidade que querem passar nos sons da banda e foram impressionados com a receptividade dos fãs e da mídia.

Antes do show de lançamento do álbum Motion, em São Paulo, Edu Falaschi e Felipe Andreoli conversaram com a equipe do Portal do Inferno sobre esse momento importante da banda e as expectativas para o futuro.

Portal do Inferno: Não tem como fazer uma entrevista hoje com vocês sem perguntar sobre o Rock in Rio. Exceto pelos problemas ocorridos na apresentação do Angra, como foi estar em um evento deste porte no Brasil?
Edu Falaschi:
Foi bom pra caramba, pelo lado da divulgação, pelo status de estar no maior festival do mundo. Mas lá dentro percebemos que a parte técnica não foi o que pensamos que seria. De repente, não foi nem culpa do festival, mas da equipe que estava lá. Infelizmente, não foi um bom show, principalmente pra mim, foi um dia muito ruim, eu não estava bem nem fisicamente, nem psicologicamente por um monte de problemas que estavam rolando. Mas, valeu a experiência e obviamente abriu algumas portas para próximas edições e, quem sabe, com o Almah. O importante é que a gente foi lá e cumpriu nosso papel.
Felipe Andreoli: Não dá para ignorar os problemas… infelizmente eles se tornaram o foco das minhas lembranças do festival. A organização que nos atendeu foi muito ruim e prejudicou demais o nosso show. Rola uma energia muito boa quando subimos no palco e vemos 50 mil pessoas participando, mas esse sentimento só durou enquanto estávamos lá em cima. O antes e o depois foram terríveis. Tenho boas e más memórias desse dia. Boas pela galera que estava lá e más pela organização.

Almah

P.I.: Quando aconteceram todos os problemas com o Angra e a banda ficou parada, você lançou Almah, seu primeiro CD solo, em 2006 e, na sequência, Fragile Equality, e foi aí que o Almah se consolidou como banda, com uma formação sólida. Passou pela sua cabeça a ideia de deixar o Angra e seguir somente com o Almah?
Edu:
Na verdade o Almah só virou banda porque o Angra parou. Quando tivemos a primeira pausa, eu não sabia se o Angra ia voltar, por isso, eu tomei a iniciativa de tornar o Almah uma banda, não apenas um projeto paralelo. Depois, o Angra retornou às atividades, e eu poderia ter desencanado do Almah, mas o Fragile Equality (2008), fez muito sucesso com o público metal, até mesmo com os fãs do Angra. Rolaram algumas comparações entre as duas bandas, com o último trabalho do Angra, o Aurora Consurgens (2006), que eu acho que é um álbum muito bom, com muitas inspirações. Aí falaram muito que o Almah era a minha prioridade e eu, particularmente, não acho, até porque eu já estava há muitos anos com o Angra.

Hoje em dia, isso mudou e o Almah virou uma das minhas prioridades, porque a banda cresceu mais ainda. O Motion é um disco que as pessoas gostaram muito, fomos para o Japão, para a Europa para promover. Então, virou uma banda mesmo.

P.I.: Você é uma pessoa muito ligada ao Anime, até por ter gravado Saint Seya. Além disso, idealizou e coproduziu um livro de mangá. Podemos esperar algo deste tipo no futuro ou este trabalho foi somente uma ideia que surgiu com o Fragile Equality?
Edu:
O mangá tá na minha vida, basicamente, por causa dos Cavaleiros do Zodíaco. Depois que eu fiz a participação no desenho, tanto o Angra quanto o Almah começaram a receber convites para participar de eventos de anime. E, então, eu participei muito desses festivais de anime e mangá e tive a ideia de produzir esse livro. Toda a história e os desenhos ficaram prontos e, na última hora, a editora sumiu, me deixou na mão e eu perdi o embalo do negócio, porque aí já veio a ideia de fazer outro disco com o Angra, o Aqua, e isso acabou ficando de lado. Eu tenho vontade de retomar isso um dia e lançar este livro, até porque já está pronto, guardado, eu só preciso de uma editora que realmente queira investir nisso.

P.I.: Edu Falaschi e Felipe Andreoli assinam duas das produções do Almah. É mais fácil trabalhar com uma pessoa da própria banda? Como funciona esta parceria?
Edu:
É uma parceria ótima! O Felipe é muito bom para tirar timbres de baixo e guitarra, manja bastante de bateria também. E eu também gosto muito de trabalhar com isso. Acabou combinando que os dois gostam da produção e, quando percebemos, já estávamos tomando conta. Isso não foi planejado no começo, mas continuamos no Motion. Ele ajudou muito inclusive no desenvolvimento da arte da capa, ele mesmo produziu as fotos. Acompanhamos o tempo todo a mixagem feita na Holanda, definimos cada detalhe e deu muito certo trabalharmos assim.
Felipe: Nós trabalhamos bem juntos e sabemos bem o que queremos. Procuramos usar as qualidades de cada um para atingirmos esses objetivos. Em algumas características o Edu tem mais facilidade, já em outras, eu tenho mais, nos revezamos nessas tarefas e, temos dois pontos de vistas diferentes para a totalidade do trabalho. Foi muito fácil trabalhar no Motion, até pela experiência que adquirimos no Fragile Equality, não apenas com relação ao Edu, mas com relação à banda como um todo, que já estava mais entrosada e cada um já tinha um espaço mais consolidado no grupo.

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P.I.: Vocês passaram rapidamente pelo Japão e Europa para divulgar o Motion. Como está essa turnê de divulgação e a aceitação do álbum pelo público no mundo?
Edu:
A princípio, quando a gente mandou o álbum para as gravadoras, eles tomaram um susto porque o Motion é completamente diferente de tudo o que eu já fiz na minha carreira. Eu tive que falar pros caras: “olha, nós chutamos o balde mesmo porque achamos que esse é o estilo da banda”. O Fragile é um grande disco, mas sabemos que ainda tem algumas características do Angra e o Motion tinha que trazer 100% o estilo e a cara do Almah. Quando lançamos o primeiro single, percebemos que os jornalistas adoraram, principalmente na Europa, onde eles gostam de som mais pesado. O Japão agora está entrando nessa onda também, o Arch Enemy e o Children of Bodom são muito grandes lá. Inclusive, recebi um e-mail hoje da JVC parabenizando e dizendo que as vendas lá estão surpreendendo e que estão muito felizes com o resultado. E as críticas têm sido as melhores, na Europa e no Japão a gente tá crescendo bastante.
Felipe: A gente foi fazer essa promo tour no Japão e Europa e nosso contato foi basicamente com os jornalistas, o público mesmo não tinha ouvido ainda, porque não havia sido lançado. Mas a recepção da imprensa foi surpreendente. A gente acredita muito no nosso trabalho e mudar de estilo foi uma aposta, poderia dar certo ou não. A mudança foi positiva, foi realmente o caminho correto e confirmamos isso com os a mídia especializada. Os principais jornalistas do Japão estiveram no escritório da JVC para nos entrevistar pessoalmente, o que não é corriqueiro, e essas e outras coisas nos mostraram que a recepção do Motion foi tremenda, mesmo.

Na Europa, a gente acabou surpreendendo quem esperava mais uma edição do projeto solo do Edu. Acho que só o fato de ter aparecido lá eu, o Marcelo Barbosa e o Edu já dá mais essa cara de banda mesmo, não de um projeto. Isso fez toda a diferença também.

P.I.: Motion já abre com o peso de Hypnotized e, de cara, esta faixa já cativa o fã. Ela também pode ganhar um videoclipe?
Edu:
A gente está muito feliz com a receptividade do álbum e já fez dois videoclipes: Trace of Trait e Late Night in ’85, ambos com muitas visualizações em pouco tempo. Já estamos pensando em mais dois clipes até o fim do ano e, muito provavelmente, faremos da Hypnotized, sim. Temos algumas ideias por aí.
Felipe: A nossa ideia é fazer vários videoclipes. Como o Edu disse, já temos dois engatilhados, não sabemos ainda quais serão as músicas e está difícil escolher, porque gostamos muito de todas elas e conseguimos imaginar histórias que contariam bem as letras. A vontade era fazer um clipe para todas as músicas, vamos fazer o possível e Hipnotized é, com certeza, uma forte candidata.

P.I.: O Edu já disse em entrevistas que é uma pessoa bem eclética, curtindo diversos estilos de música, de blues ao death metal. O que vocês estão ouvindo agora e que tem influenciado?
Edu:
Gosto de tudo, mas tenho ouvido algumas bandas novas de metal, como o Textures, do cara que mixou o nosso disco. Recentemente, tenho ouvido Billy Idol, o cara é muito foda; algumas bandas tipo HIM, um gótico mais moderno; Depeche Mode também. Tudo que tem uma linguagem mais moderna eu curto muito, bandas que usam efeitos eletrônicos, como Rammstein e por aí vai.
Felipe: Tudo o que a gente escuta acaba virando uma influência na hora de compor. Eu tenho ouvido muito Tears for Fears, o show que teve recentemente aqui reacendeu a vontade de ouvir essa banda; Textures, como o Edu citou também, o guitarrista mixou o Motion; ouço muito fusion, jazz, pop. Metal eu ouço em alguns momentos, porque eu já ouço tanto metal enquanto estou trabalhando, que quando tenho a chance, quero ouvir algo diferente.

P.I.: O trabalho instrumental de Motion tem uma pegada mais thrash metal. É isso mesmo que os fãs podem entender da nova identidade do Almah?
Edu:
Nós definimos o estilo do Almah como uma mistura entre o peso do death e thrash, a técnica do progressivo e melódico e a harmonia e a melodia do melódico também e, até mesmo, um pouco de pop de bandas mais modernas, como Muse, U2 e Coldplay. Esses elementos montaram a cara do Almah e a gente acredita, realmente, que seja a alma da banda e o que vai seguir daqui pra frente.
Felipe: Esse foi o primeiro disco do Almah que a gente fez sem nenhum tipo de amarra, sem nenhum tipo de receio de mudar radicalmente o estilo. Já que o Edu e eu somos do Angra, que tem o seu público, até o disco passado a gente tinha um pouco dessa preocupação de soar algo familiar. Aí, percebemos que as músicas mais pesadas foram as que mais chamaram atenção e isso coincide com o nosso gosto: também achamos que os sons mais pesados são os mais legais. Isso nos deu uma segurança maior para apostarmos nessa direção e acharmos mesmo a cara do Almah e encontrar essa identidade foi muito importante pra gente.

P.I.: Thiago Bianchi (Shaman) divide o vocal na faixa Daydream Lucidity. Esta participação de Thiago se deu por causa do projeto Arena, o qual você também fez parte? Fale um pouco das participações especiais do Motion.
Edu:
Tivemos três participações no álbum: o Edu Cominato, que fez alguns backing vocals; o Victor Cutrale, vocal do Furia Inc, que cantou na Zombie Dictator; e o Thiago, que cantou na Daydream Lucidity. Eu já conheço o Thiago há muito tempo, somos muito amigos e ele estava dando uma força nas gravações e o convidei pra cantar também, um som mais progressivo, que combina bem com o estilo dele.

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P.I.: Após o Rock in Rio, você declarou em uma entrevista que vai parar por tempo indeterminado com o Angra, cumprir a agenda do Almah e cuidar da sua saúde, após o término da Motion Tour. Como vai ficar o futuro do Almah?
Edu:
Tomei essa decisão, primeiro, em decorrência do Rock in Rio, claro, foi um fato que me deixou muito chateado. Mas eu tenho que dar um tempo para descansar a minha voz e fazer um tratamento completo para o refluxo, esse ácido prejudica a minha voz e queima constantemente as minhas cordas vocais. Eu conversei com alguns médicos recentemente e já comecei esse tratamento para me preparar para uma cirurgia, estou tomando alguns remédios, fazendo exames e retomei as aulas de canto, para fortalecer as cordas vocais. Coincidentemente, o ano está acabando e isso ajudou. O Angra ia dar esse tempo de qualquer forma, o Kiko está na Finlândia passando um tempo com a filha recém-nascida e o Almah tem alguns compromissos que eu vou cumprir. O Paulo está afastado, passando por um tratamento intensivo de um problema do coração que ele tem desde que nasceu. Eu devo operar em janeiro e, como no começo do ano a cena aqui no Brasil é um pouco parada, vamos tirar esse tempo recuperação. Em março já volto a ensaiar, praticar e, acredito que em abril o Almah já pode retomar as atividades da divulgação do Motion.

P.I.: Muito obrigado pela entrevista, o espaço é de vocês para deixar um recado aos fãs e leitores do Portal do Inferno.
Edu:
Agradeço a entrevista e espero que vocês acompanhem o Almah nos shows, que curtam o Motion e a gente se vê por aí. Valeu!
Felipe: Muito obrigado pela receptividade enorme do disco que a gente teve aqui no Brasil, tomara que a galera tenha entendido e abraçado essa nova proposta. Os shows estão bem legais e espero encontrar todos ao longo da turnê, a participação da galera é fundamental pra gente. Nos vemos na estrada!

Renata Santos

Sou formada em jornalismo e colaboro com sites de música há quase dez anos. Integro a equipe do Portal do Inferno desde 2011.