A Shadowside teve um grande ano! Inner Monser Out foi um trabalho aclamado entre os lançamentos de 2011, a banda ganhou muito mais visibilidade com clipes e entrevistas, figurando os principais veículos dedicados ao Heavy Metal no Brasil e no mundo e é apontada pelo público (e não somente pelos seus fãs) como uma das maiores bandas nacionais em atividade, atualmente.

Em uma bateria de entrevistas, em São Paulo, a vocalista Dani Nolden conversou com o Portal do Inferno por e-mail sobre as perspectivas da banda, a situação do Heavy Metal Nacional e até sobre futebol. A entrevista na íntegra, você confere a seguir:

Portal do Inferno: Em 2011, a Shadowside completou dez anos em atividade. Como você avalia essa década? De que maneira a banda evoluiu nesse tempo?
Dani Nolden: Na minha opinião, a Shadowside não tem dez anos de carreira. Eu vejo tudo que aconteceu entre 2001 até 2006/2007 como uma preparação para o que viria a seguir. Passamos muitos desses anos apenas lutando para ter o direito de terminar e lançar o primeiro álbum, por um problema com a primeira gravadora que assinou conosco. Foi um período complicado, pois aconteceu logo depois do sucesso inicial até inesperado que tivemos e acredito que muitos dos ex-membros da banda não estavam preparados para lidar com isso. Foi quando começamos a filtrar quem deveria ou não estar na banda, por diversos motivos, até encontrarmos a formação ideal e finalmente seguirmos em frente. Em 2007, quando isso aconteceu e passamos a ter como objetivo lançar sempre um material melhor que o anterior e sempre buscar nosso melhor como músicos, as portas começaram a se abrir. Em quatro anos, lançamos três álbuns no Brasil e no exterior, fizemos cinco turnês nos Estados Unidos, tocamos em 20 países na Europa e abrimos para bandas como Iron Maiden, W.A.S.P., Nightwish, Helloween. Então, apesar da banda ter iniciado as atividades há 10 anos, eu considero que o verdadeiro nascimento da Shadowside foi em 2007. Foi quando decidimos deixar de esperar as coisas acontecerem e paramos de “brincar” de banda. Os quatro membros passaram a correr atrás, acreditar de verdade no nosso potencial e ter a banda como prioridade. Amadurecemos muito durante as turnês, tanto como músicos quanto como pessoas, passamos a ser extremamente críticos com nosso próprio trabalho. Tudo tem acontecido de forma bem rápida desde então. No começo, era tudo bem inocente, era pura atitude, pura diversão. Agora as coisas são mais interessantes, porque temos o desafio de manter essa paixão de quando começamos quando adolescentes com a preocupação de sempre fazer shows e álbuns com cada vez mais qualidade. Assim como a primeira metade dessa década nos preparou para tudo que está acontecendo, hoje, com a banda, acredito que o que estamos fazendo hoje é nossa base para voos mais altos.

P.I.: Inner Monster Out recebeu ótimas críticas da mídia especializada e é considerado um dos grandes álbuns nacionais de 2011. No que este álbum se diferencia dos demais da Shadowside?
Dani: Inner Monster Out é bem mais pesado que os anteriores, mas isso é algo que nós já buscávamos. Tem um toque de moderno, porém sem perder as raízes. Acredito que este trabalho mostra exatamente a verdadeira identidade da Shadowside. Inner Monster Out é um álbum sensivelmente mais maduro que nossos trabalhos passados, aproveitamos tudo que considerávamos bom dos materiais antigos, como a energia, as melodias bonitas e marcantes, direto e sem excessos, porém, dessa vez compomos todas as músicas juntos. Todos deram palpites em tudo e estávamos com nossas mentes completamente abertas, sem medo de experimentar, sem preocupações em seguir uma influência específica. Sempre nos chamaram de Power Metal, porém, nós nunca nos consideramos dessa forma, então não nos sentimos presos a rótulos, o que nos deu completa liberdade para criar. No final, acabou saindo um trabalho diferente, realmente nosso. Nosso maior desafio era manter a música simples, sem que ela ficasse simplória e acredito que o melhor exemplo do resultado disso é a música Angel with Horns, que tem várias partes diferentes, arranjos e refrão meio incomuns, porém você consegue sair cantando logo na primeira audição. Nós queríamos que esse trabalho fosse o melhor que já fizemos até hoje, obviamente, queríamos o melhor trabalho das nossas carreiras e algo que todos nós pudéssemos nos orgulhar, porém não queríamos fugir das nossas raízes, ao mesmo tempo que esperávamos atingir um novo público e acredito que conseguimos. Nossos fãs antigos têm comentado que esse é o melhor álbum da Shadowside e muita gente que não ligava ou não gostava de nós acabou mudando de ideia ao ouvir o Inner Monster Out.

P.I.: Recentemente, vocês receberam o prêmio Banda de Heavy Metal do Ano, no Prêmio Rock Show 2011. Em um ano onde o rock nacional foi tão questionado ou esteve em tanta evidência, qual é a importância desse reconhecimento?
Dani: Esse prêmio para o Raphael e eu é ainda mais especial, pois a entrega do prêmio aconteceu em Santos, cidade onde vivemos. É o primeiro prêmio que ganhamos no Brasil e acredito que isso mostra, até para nós mesmos, como estamos crescendo, não apenas lá fora, mas no nosso próprio País também. Na verdade, essa é uma vitória do Metal brasileiro, não apenas da Shadowside, porque entre outras categorias que premiaram bandas como Fresno e NX Zero, o Rock Show tinha a categoria Metal. Eles deram atenção ao mainstream sem deixar de lado o Heavy Metal e isso é muito importante. A maioria das premiações do tipo nem lembra que o Heavy Metal existe.

Dani Nolden - Shadowside

P.I.: Como está a cena heavy metal de Santos, atualmente? Você recomenda alguma banda para a galera conhecer mais?
Dani:
Agora com o fechamento da única casa dedicada ao Rock e Heavy Metal, acredito que a cena vai sofrer ainda mais. Temos o Studio Rock, onde fizemos a festa de lançamento do Inner Monster Out em parceria com a Kiss FM. O Studio Rock é um local agradável para o público, mas tem um perfil diferente, não é completamente voltada ao Metal. Não consigo imaginar como uma banda local nova vai conseguir mostrar seu trabalho, apesar de termos a internet atualmente, banda que não toca ao vivo acaba morrendo. Sempre que tocamos em Santos, procuramos colocar uma banda da cidade para abrir, em uma tentativa de fortalecer a cena local. Minha favorita atualmente é o Hugin Munin. Eu cantei em uma banda com dois membros do Hugin Munin, antes mesmo do Shadowside e estou muito feliz com o crescimento deles com esse novo grupo!

P.I.: Recentemente, você declarou que não concorda com a opinião do Edu Falaschi (Angra/Almah) sobre a falta de apoio às bandas nacionais e que o Heavy Metal brasileiro está na sua melhor fase. Em algum momento você sentiu que o trabalho da Shadowside foi prejudicado pela falta de apoio do público brasileiro? Como os fãs da Shadowside pelo País se portam diante desse cenário?
Dani:
Eu sinceramente nunca senti qualquer falta de apoio do público. Não quero tentar parecer simpática com os fãs, é realmente o que eu penso. Como eu já disse milhares de vezes, tenho enorme respeito pelo Edu, as reclamações dele têm fundamento e é claro que existem problemas no Heavy Metal brasileiro, porém acho que o último que pode ser culpado é o público. Antes de reclamarmos que o público não vai a shows e não compra disco, temos que analisar friamente a qualidade desses shows e discos. Não a qualidade musical, mas a qualidade técnica. A quantos shows nacionais podemos assistir com qualidade sonora suficiente para que seja possível ao menos entender o que os músicos estão tocando? A grande maioria dos organizadores de eventos não se importa com o equipamento que eles colocam para as bandas e não diferenciam bandas underground de bandas de bar. Uma banda de bar é contratada para manter o público na casa pelo maior tempo possível, então eles precisam começar o show tarde e tocar até 3, 4h da manhã. Não importa quantas pessoas estejam na casa. Porém, uma banda underground quer tocar para o maior número de pessoas possível. Todo show gringo começa pontualmente às 22, 23h no máximo, com equipamento de primeira e mesmo assim, pelo excesso de shows, especialmente em São Paulo, bandas excelentes como o Evergrey tiveram um público pagante de 150 pessoas. As bandas brasileiras são forçadas a começar o show às 2h, se não tiver atraso, em um palco que a banda não cabe, com uma bateria que não para em pé e apenas um lado do P.A. funcionando. Se você tenta exigir qualquer coisa um pouco melhor, o promotor chama a banda de fresca. Claro que não são todos assim, mas a maioria é. Como, honestamente, vamos exigir que o público enxergue as bandas brasileiras com os mesmos olhos que enxergam as estrangeiras, se as condições não são as mesmas? Depois de tantas turnês, vários trabalhos vendidos, finalmente conseguimos os recursos para fazer a produção de um disco com qualidade que pode competir internacionalmente, mas levou alguns anos para que finalmente isso fosse possível. E agora que é, o que o público está fazendo? Comprando o disco! Muitos baixam, é claro, mas muitos compram, especialmente nos shows, muita gente acha especial comprar e ter o álbum autografado na hora, ou então espera ter condições de comprar os que mais gosta, porque ninguém pode comprar tudo que se lança em um mês. Quando tocamos com o Torture Squad em Araraquara, com palco, luz e som excelentes, o público estava lá, em peso, cantando nossas músicas e gritando com o Torture Squad. O festival Rock Feminino, evento que fomos atração principal em 2010, em Rio Claro, está sempre lotado. Não vendemos como Iron Maiden e é claro que ninguém vai pagar 300 reais para ir ao nosso show. Mas o Iron Maiden é uma banda histórica, com milhões de dólares investidos nela e todo mundo conhece, até quem não gosta de Metal. É outro mundo, outra realidade. Podemos reclamar que o público brasileiro não apoia se fizermos produção de nível internacional, tocarmos apenas em casas com excelente estrutura e ter uma gravadora por trás de nós investindo centenas de milhares na divulgação de um disco, e ainda assim não tivermos o mesmo sucesso. Enquanto isso não acontecer, temos todos que entender qual é o nosso lugar e analisar o sucesso de acordo com o que foi investido e a estrutura que temos. E eu considero que uma banda tocar em 21 países e ter mais da metade do público presente em um show comprando merchandising, com boa parte deles comprando os 3 CDs, camiseta e agasalho em pleno verão brasileiro, só porque quer ter tudo, como um trabalho muito bem-sucedido. Existe desrespeito, mas não por parte do público, e sim, por parte das pessoas que trabalham nos bastidores. Empresários de bandas brasileiras querendo que outras bandas brasileiras paguem para que elas abram seus shows, por exemplo, algo que nós felizmente nunca tivemos que fazer, mas que outras bandas podem acabar achando que é assim que a coisa funciona, quando nem o Iron Maiden nos pediu um centavo – ao contrário, exigiu que os organizadores contratassem bandas de abertura em cada um dos seus shows e dessem a essas bandas toda a estrutura possível para que se apresentassem.

P.I.: Vocês já abriram shows de bandas como Nightwish, Helloween, Primal Fear e Iron Maiden e fizeram uma turnê extensa pela Europa, em 2010, abrindo os shows do W.A.S.P. Um dos pontos dessa questão do apoio ao metal brasileiro é que as bandas nacionais são chamadas apenas para atuarem em shows de abertura de bandas gringas, tomando um lugar secundário. Você acha que isso é prejudicial para a banda ou para a cena, de um modo geral?
Dani:
Não, nem um pouco. Ao contrário, eu penso que em todo show estrangeiro, uma banda brasileira deveria ter a chance de abrir. Eu acho que é completamente natural que uma banda com menos história e buscando seu lugar ao sol esteja em um lugar “secundário”. Ela é atração no evento, mas é claro que é uma banda de abertura… quem pode ser co-atração principal com o Iron Maiden? Quando abrimos para o Nightwish e Primal Fear, tínhamos apenas um CD demo lançado. Quando abrimos para o Helloween, nosso primeiro álbum tinha acabado de ser lançado. E com o W.A.S.P., havíamos lançado nosso primeiro CD na Europa e estávamos indo para a nossa primeira turnê europeia, sendo que eles tem mais tempo de carreira que eu tenho de idade. Não acho que ser banda de abertura seja qualquer humilhação ou desrespeito, muito pelo contrário, acho um espaço importantíssimo para qualquer banda! O que seria desrespeito seria não dar a essa banda as mesmas condições de trabalho que a banda principal, como limitar o uso dos P.A.s, não deixar usar canais suficientes, impedir deliberadamente a passagem de som ou fazer uma banda brasileira abrir o show de uma estrangeira que tem menos público que a nacional. Do contrário, é apenas como funciona. A banda menor abre e tem a chance de tocar para mais pessoas e fazer seu público crescer, enquanto a banda maior já pega o público aquecido e animado. É bom para todos.

P.I.: Quais bandas ou artistas tocam no seu iPod atualmente?
Dani:
É aqui que eu assusto todo mundo com meus gostos musicais? (risos) Meu playlist vai de Michael Jackson a Rammstein. Gosto muito ainda dos meus antigos favoritos como Deep Purple, Queen e Judas Priest, mas também escuto Disturbed, In Flames. Também redescobri recentemente um disco do Johnny Lang, que meu pai comprou quando ele estava “na moda” e eu acabei gostando muito tempo depois. Deixo que o shuffle me surpreenda (risos).

Shadowside

P.I.: Antes de apostar na carreira musical, você jogava nas categorias de base do Santos F.C. Que tipo de torcedora você é? Acompanha frequentemente os jogos? E como foi, na época, ter que escolher entre ter uma banda ou jogar futebol?
Dani:
Eu já fui melhor torcedora… (risos). Hoje em dia, não sei nem a escalação do meu time. Sou são-paulina mas não acompanho, acabei perdendo um pouco do interesse quando parei de jogar, porque foi um período confuso e difícil para mim, exatamente por ter que escolher entre apenas uma das minhas duas paixões. Você deve imaginar como as coisas são competitivas no futebol ou em qualquer esporte. Se você se machuca, a probabilidade de você perder seu lugar é grande. Cheguei a jogar por seis meses com uma tendinite no tornozelo, a ponto de não conseguir mais chutar com o pé direito por causa da dor. Para esconder da treinadora, que obviamente não queria que alguém jogasse nessas condições, aprendi a jogar como canhota e quando ela perguntou, eu disse que era ambidestra (risos). Tudo para não perder meu lugar. Eu comecei a cansar daquilo tudo, das fofocas, das panelinhas, ao mesmo tempo que meu amor pela música crescia. Eu queria jogar, mas não queria ter que lidar com tudo aquilo. Até que uma lesão muscular me tirou dos treinos por duas semanas, o que me permitiu me dedicar apenas a minha primeira banda e eu acabei percebendo que música era algo mais divertido. Não foi fácil largar o esporte, eu senti falta por muito tempo, pensei várias vezes se havia tomado a decisão certa. Hoje sei que tomei. O que vivi dentro da música daria pra escrever um livro e se tivesse seguido a carreira de atleta, eventualmente eu teria sido obrigada a largar a música. Hoje, já não sinto mais saudade da rotina de treinos e jogos, mas acabei não retomando o costume de assistir aos jogos. Sempre penso “hoje vou assistir”, então vou fazer outra coisa e acabo esquecendo (risos).

P.I.: Fora a rotina da banda, quais são as suas atividades ou distrações preferidas?
Dani:
Eu gosto muito de ler, jogar videogame e comecei a praticar Kung Fu há alguns meses. Sou extremamente preguiçosa para fazer exercícios, essa é a única atividade que não me desanima fazer, apesar de exigir bastante do corpo.

P.I.: O que os fãs podem esperar da Shadowside o ano que vem?
Dani:
Muitos shows, eu espero! Nós fizemos muitos shows no exterior e poucos no Brasil. Eu gostaria muito de igualar esses números, tenho o sonho de tocar em todos os Estados brasileiros. Não sei se será possível fazer tudo isso no ano que vem, mas eu gostaria ao menos de voltar a todos os lugares que já tocamos, além de visitar algumas novas cidades e regiões. Espero que possamos tocar pela primeira vez no Nordeste em 2012, temos um show sendo agendado em Belo Horizonte e mais cinco ou seis datas quase confirmadas. Estaremos bem ativos durante todo o ano! Primeiro no Brasil, depois no exterior.

P.I.: Muito obrigada pela entrevista. O espaço é seu para deixar uma mensagem para os fãs e leitores do Portal do Inferno.
Dani:
Espero que todos escutem e curtam nosso novo álbum Inner Monster Out, que cantem todas as músicas conosco nos próximos shows e batam bastante cabeça! Se seu vizinho te perturbar com músicas natalinas, toque Waste of Life bem alto para ele (risos). Mas espero que todos tenham um Feliz Natal e um próspero Ano Novo, independente de crença ou falta dela. Que boas coisas aconteçam para todo mundo e que 2012 venha com muito Heavy Metal!!!

Renata Santos

Sou formada em jornalismo e colaboro com sites de música há quase dez anos. Integro a equipe do Portal do Inferno desde 2011.