Confira entrevista com o multi-instrumentista Snowy Shaw; ex-King Diamond, Therion…

O Portal do Inferno teve o prazer em conversar com Snowy Shaw, músico que já passou por diversas bandas de metal, como King Diamond, Therion, Dream Evil, Notre Dame.

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Confira um pouco desse bate-papo abaixo:

Você é um multi-instrumentista, com extraordinária versatilidade, se adaptando aos mais variados estilos do heavy metal e com várias composições de autoria própria. Como escolhe os músicos que irão acompanhar você nas turnês?

Sim, você está correto. Eu componho, toco, canto e enfim…fiz praticamente tudo que você possa ouvir e ver, porque eu não queria comprometer as minhas ideias e eu aprendi com o tempo que esta decisão foi acertada.

Eu não quero dizer que isso é fácil, mas provavelmente foi mais tranquilo assim do que ter que explicar para outras pessoas o que eu queria fazer. Neste ano eu celebro 40 anos desde quando me iniciei na música, tive a minha primeira banda e gradualmente aprendi a tocar bateria.

Desde então, houve milhares de tentativas de encontrar a banda perfeita, e pela minha experiência, o que aprendi, é que se você quer algo feito corretamente, você tem que fazer sozinho, D.Y.I. (Do It Yourself: faça você mesmo, em inglês). Posso muito bem ser o embaixador dessa velha expressão.

Sobre a escolha dos músicos para turnê: houve alguns, ao longo dos anos. Não é uma tarefa fácil, pois minha música e meu catálogo anterior abrangem muitos estilos e subgêneros diferentes dentro do rock/metal. Do glam ao Black metal e tudo mais.

Portanto é preciso ser competente e versátil, e tive sorte de recrutar alguns dos melhores para me ajudar a replicar ou recriar o que fiz em estúdio.

Para mim, assim como para muitos fãs, os seus trabalhos que mais tiveram destaques foram no Mercyful Fate. Entretanto, eu li em uma entrevista que eles boicotaram o seu processo criativo. Isso te motivou a deixar a banda e a lançar seus projetos solos?

Bom, desde os primeiros dias que eu entrei no Mercyful Fate ficou acordado com todos os membros que eu participaria e contribuiria com o processo de criação e composição das músicas. Era esse o acordo quando entrei e nada mais importava. Mal sabia eu que não era esse o caso e que eles tinham desde o início da banda feito um acordo que os créditos de composição das músicas seriam divididos em 40/40/20 para Hank, King e Denner, nessa ordem, sendo que King naturalmente escreve todas as letras.

Entretanto, eu tenho total entendimento e respeito por todo tipo de combinado e não tenho problemas em relação a isso. Mas eu só queria que eles tivessem sido mais claros nesse ponto. Eles simplesmente queriam um baterista para tocar bateria e só. Nada incomum na história do rock, mas eu não aceito isso. Comigo tem que ser o ‘pacote completo` (ao menos que algo a mais havia sido combinado).

O que descobri ao longo dos anos como músico de rock é que a origem dos problemas vem das pessoas que simplesmente assumem muitas coisas sem declarar os fatos ou ousar ser franco e claro nos termos de colaboração. Não sei se é por medo ou por pura ignorância, mas sei muito bem que é o que cria mais problemas. É também por isso que insisto, até hoje, em ter um contrato comercial elaborado com os termos e condições, como uma descrição de trabalho adequada. Tudo apenas para evitar problemas, dissonâncias, e mal-entendidos entre colegas e amigos.

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Você ainda mantém contato com King Diamond? Ainda pensa em fazer algum trabalho junto com ele?

Sim, nós mantemos contatos esporádicos e sempre com bons termos. Eu escrevi uma canção no meu último álbum ‘White is the new black’ que chama ‘Family Feud’ com o intuito de fazer um tipo de dueto entre eu, King e Messiah. Infelizmente, King é muito ocupado e ele disse que se ele participasse a gravadora o crucificaria, pois não pode aparecer em outro álbum, antes do lançamento do seu novo trabalho. O que faz sentido e eu o entendo perfeitamente. Entretanto, eu tenho trabalhado em um álbum especial agora, onde eu convidei muitos músicos da mais alta qualidade e bem…veremos o que vai acontecer.

Você sendo um multi-instrumentista não tem dificuldades para compor a parte musical de uma canção. Entretanto, de onde vem ideias e inspirações para fazer as letras?

Eu gostaria de saber, mas eu realmente não sei. Até certo ponto, minhas letras refletem o que eu estou passando na vida, embora eu prefira criar música como uma espécie de escapismo de todas as merdas indescritíveis que acontecem no mundo e na minha vida. Escrever música e ter uma saída criativa para pintar um quadro com ela é a minha maior paixão. Creio que tenho uma imaginação muito selvagem e viva. Eu principalmente escrevo letras que se adéquam e, com sorte, aumentam o clima da música. Tudo depende do estilo da canção ou personagem da música em particular e da mensagem e da vibração que quero transmitir.

De toda a sua carreira musical, qual o seu ponto mais alto e por quê?

Eu deixo para os outros decidirem. Desde quando comecei a tocar, nos mais diversos estilos e bandas, eu sempre fui muito verdadeiro e dei o meu melhor, isto tudo depende da percepção e preferência dos fãs. Muitas pessoas falam que a minha banda antiga de horror metal, Notre Dame, foi o trabalho mais engenhoso que já fiz. Enquanto que muitos outros, nunca escutaram os meus trabalhos undergrounds e obscuros e preferem Dream Evil, por exemplo. Para mim, seja o trabalho que for, o que importa é fazer no meu tempo e tendo poder para fazer o que eu acho melhor, com os meus objetivos e convicções. Então, eu deixo as coisas rolarem, sigo em frente para novas aventuras, sem perder tempo olhando para trás. Quando terminar, está feito.

Por outro lado, há várias coisas legais no passado que eu fiz e que infelizmente foram esquecidas ou ignoradas por várias razões. Como estar adiantado ou fora de sincronia com o que era popular na época. Por exemplo, Illwill (1993/95) Mad Architet, Notre Dame (é claro) ou Opera Diabolicus, apenas para mencionar e destacar alguns.

Além de músico, você é fotógrafo e designer, sendo um trabalho a parte da área de composição das músicas. Você acredita que é importante para os músicos terem alguma atividade que sirva como ‘válvula de escape’?

Eu não vejo isso como algo diferente da minha música: é apenas uma forma visual e está tudo conectado. Eu não tenho feito nenhum trabalho como fotógrafo para outras bandas e artistas há muitos anos e é quase o mesmo com os meus designs. Por necessidade,quando eu não estava satisfeito com o que os outros podiam fazer, ou o que eu tinha condições de fazer tudo isso sozinho. Tudo, desde arte a roupas de palco, adereços, vídeos, etc. Por conta disso, eu fui contratado por outras bandas e artistas que gostaram do que me viram e pediram para fazer algo legal para eles. É basicamente isso.

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Notre Dame era uma banda que tinha bastante aceitação do público. Por qual motivo decidiu terminar as atividades?

Na minha aclamada autobiografia , ‘Book of Heavy Metal`, que eu lancei no último verão, (inverno no Brasil) tem tudo explicado sobre esse assunto.

Atualmente temos bandas como Ghomulti-instrumentistast e Avatar, por exemplo, que seguem a mesma linha teatral de Notre Dame. O que acha do som dessas bandas? Sempre surgem rumores que você poderia ser um membro do Ghost. Você consideraria essa possibilidade ou é um mero rumor?

Hahaha, eu lembro de ter ouvido esses rumores e de fato faziam algum sentido. Mas eram meros rumores, sem sentido algum. Eu creio que Papa Tobias é realmente excelente e um ótimo ilusionista. Eu penso que as bandas tem alguma semelhança com o meu trabalho e creio que eles eram fans do Notre Dame!

Recentemente Markos Hietala anunciou sua saída do Nightwish. Claro, não é uma escolha de fan,mas você já se imaginou na banda?

Não até ler que Markos havia saído da banda e eu pensei: `Hmm… pode ser um bom local para mim’. Aparentemente, eu não fui o único que pensei assim, pois, nos dias que se sucederam a notícia, recebi e-mails de várias pessoas falando que eu seria o substituto perfeito no Nightwish. Eu acho melhor vermos o que vai acontecer.

Gothic Kabbalah é um álbum do Therion, que eles distanciaram muito do que era o som original deles. Você trabalhou como vocalista e se destacou muito. Você teve participação na parte instrumental e composição? Você participou também do álbum seguinte, Les Fleurs Du Mal. Por que você não seguiu adiante na banda?

Sim, estou de acordo. Gothic Kabbalah deu início a uma nova era no Therion em vários aspectos. No verão de 2006 (inverno no Brasil) o material já estava escrito, então minhas forças foram voltadas para a parte vocal e eu contribui minimamente no instrumental.

Dito isso, além dos vocais, fui contratado como designer responsável por dar a banda uma reformulação necessária com a produção de palco e apresentação visual geral. Na minha opinião, o Therion nunca soou ou pareceu melhor do que na época do Gothic Kabbalah e na turnê mundial que se seguiu. Após a turnê de 20 anos, o líder Christofer decidiu tirar um ano sabático em 2008 e muitas coisas mudaram durante esse hiato, como a saída dos irmãos Niemann e Peter Karlsson, que estavam muito envolvido no Gothic Kabbalah. Depois disso, fizemos o Sitra Ahra, onde escrevi talvez 3 músicas. No entanto, não fiquei muito satisfeito com a forma como aquele álbum saiu e a mesma coisa com o próximo,e gradualmente comecei a perder o interesse e por isso me juntei ao Dimmu Borgir no início de 2010. Cara você precisa ler minha autobiografia. Posso altamente recomendar: www.snowyshaw.net

De todas as bandas que já trabalhou, com qual mais gostou e qual você teve mais dificuldade?

Hummm…eu creio que uma delas foi o Mercyful Fate, por conta, de ser o único sueco em uma banda onde os integrantes e o pessoal da equipe técnica era todo dinamarquês e eu tinha dificuldade em entender o idioma deles. Por conta disso, eu me sentia uma ‘estranho no ninho`. As dificuldades no Dimmu Borgir tiveram muito pouco a ver com a banda em si, mas mais com o agora ex-empresário deles. Mais uma vez leia tudo sobre no ‘Book of Heavy Metal’.

Hoje há muitos sidemans, você se vê como um?

Não, esta é a minha natureza. Nos últimos 7 anos, depois que sai do Sabaton eu foquei na minha vida e nos meus projetos. Embora, eu tenha feito projetos paralelos de estúdios e trabalho de sessão de estúdios.

Recentemente você lançou sua autobiografia e tem seus projetos. Nesses seus 32 anos de carreira, você vivenciou várias situações,e agora o mundo esta atravessando uma pandemia. O que tem feito neste período e podemos esperar algo diferente de Snowy Shaw?

Sempre, hahaha. Espere o inesperado. Atualmente, estou trabalhando duro em um conceito de álbum muito interessante de 12 músicas no total, onde lançarei uma música por mês digitalmente e, no próximo natal, lançarei uma edição limitada de vinil deste trabalho. O nome será : `This is heavy metal, plain & simple’ e é , de certa forma, uma homenagem a meio século de heavy metal, onde haverá um monte de convidados formado por heróis adolescentes e ídolos, lendas vivas (que alguns deles pretendiam participar e tristemente se foram) e ex-companheiros de banda e amigos da comunidade do metal para cantar comigo ou tocar um solo de guitarra, por exemplo, como convidado e assim por diante.

Eu vi o seu show no Wacken de 2016 e foi espetacular e muito teatral. Sua performance é algo que faz prender a nossa atenção. Você se preocupa que toda a produção seja parte da banda?

A resposta é simples e curta: ‘Sim`.

Você já esteve no Brasil com o Therion. Há possibilidade de você retornar aqui com a sua carreira solo?

Eu espero que sim. Entretanto, precisamos ter dias melhores. Mal posso esperar para trazer o meu show, seja o grande e espetacular ou o evento mais íntimo de autógrafos que foi planejado quando o Corona se espalhou e começou a quarentena.

Muito obrigado pela sua entrevista. Deixe uma mensagem para os fãs brasileiros.

Gostaria de dizer primeiramente que não vejo a hora de reencontrá-los. Vocês são ótimos. Obrigado por todo apoio. Me acompanhem no Patreon, Facebook, Instagram e veja a minha webshop que há produtos exclusivos: www.snowyshaw.net.

Espero vê-los o mais breve possível.

Muito obrigado,

Snowy

Tradução por: Leonardo Cantarelli

Só mais um ser humano que adora Heavy Metal.
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