Sádica Utopia Convergente, conhecida como S.U.C. A banda com esse nome enigmático pratica o som mais extremo e sujo do metal: grind/death.

Sem medo de por o ‘dedo na ferida’ da sociedade, o grupo formado em São Carlos/SP, faz críticas ao machismo, racismo, homofobia e as religiões. Para muitos, a função do heavy metal e do grindcore é se posicionar contra os dogmas e conservadorismo da sociedade. Senão, não tem motivo para tocar heavy metal.

Fundado em 2014, os paulistas já lançaram 2 EP’s. O primeiro, que leva o mesmo nome do grupo, saiu em 2016. Enquanto, em 2017, foi lançado o ‘Submissão ao Medo’.

Em 2020, a S.U.C. tem como intenção gravar o primeiro full-length, que se chamará ‘Cartilha da Dor’.

Para falar sobre a ideologia do grupo, os shows já realizados, dentre outros temas, o Portal do Inferno, entrevistou Letícia Barbosa (vocalista e fundadora), André Rocha (guitarrista), Egiliane Silva (baixo) e Guilherme Santos (baterista).

Da esq à dir: Guilherme Santos, Letícia Barbosa, Egiliane Silva e André Rocha. Crédito: Instagram/Sucdeathgrind.

Confira:

A sigla S.U.C. quer dizer Sádica Utopia Convergente. De onde tiraram o nome e qual o significado dessa frase para  a banda?

Letícia: O nome foi uma brisa filosófica minha e da Alice, primeira guitarrista da banda. Resumindo levamos em consideração o Grindcore, que é o estilo escolhido para a banda, o protesto e a denúncia que esse estilo propõe em sua essência e observações sobre a sociedade em que vivemos, suas crenças e vivências.

O nome une esses elementos e foi elaborado para expor desigualdades, opressões e preconceitos que são ignorados por grande parte da população que também sofre de alguma forma, mas que só ignora porque não reconhece ou não tem informação suficiente, por exemplo. Pela falta desse reconhecimento, grande parte da sociedade espera um mundo e uma vida melhor e se prende nessa esperança, mas continua enfrentando essas desigualdades, a pobreza, o racismo, a homofobia, o sexismo enquanto alimenta essa esperança através de crenças religiosas e até mesmo se apega a uma cultura conservadora achando que será recompensado por obedecer a doutrinas, fazendo de sua vivência um ciclo sádico, utópico e vicioso, como se fosse normal e aceitável suportar essas dores enquanto se espera por um mundo ideal. Então o nome S.U.C surge como um alerta para todas as pessoas, um chamado para resistir, se informar e protestar de alguma forma e não apenas esperar caladas, sofrendo e se restringindo enquanto aguardam que “poderosos milagres” cessem seus sofrimentos. O grande recado é: temos força para mudar isso [email protected] e podemos fazer dessa utopia algo mais tangível.

O grind core sempre representou a antítese da música.Um som que agrada a poucos e nada comercial. Por que escolheram esse estilo para a banda?

Guilherme: O grind é a síntese do que a gente sempre buscou no underground e na música pesada. Nós quatro viemos da cena de metal extremo e muito embora exista uma contestação muito forte dentro dessa cena, tivemos que pegar um pouco da nossa essência punk e o grind foi a canalização disso tudo. A ideia é fazer um som com influência de Death Metal ao extremo, trazendo a fúria, o protesto e a energia do Grindcore que era feito no final dos anos 80 e no início dos anos 90.  As nossas principais influências são: Napalm Death, Terrorizer, Carcass, Rot, Repulsion, Defecation, Bolt Thrower, Slaughter (Can), Abuso Sonoro, Nasum, Nausea, Warsore, Wormrot, Benediction, Nuclear Death, Agathocles, Extreme Noise Terror.

A banda recentemente fez shows no interior de SP e em 2020 atravessou as fronteiras indo à Alfenas/MG. Como tem sido fazer essas apresentações em outras cidades e estados? Tem crescido o número de procura pela banda?

André: Para mim tem sido extremamente gratificante poder viajar com a banda porque conhecer pessoas, lugares novos, fazer amigos e tocar são algumas das coisas que eu mais gosto de fazer.Eu fico muito feliz pela S.U.C estar proporcionando isso.

Letícia: Ir para Alfenas foi muito especial para a S.U.C também porque foi a primeira vez que a banda saiu do estado de São Paulo. Quanto a procura por nós, desde essa formação se consolidou, nós temos uma agenda mensal com, no mínimo, 1 show. Estamos recebendo muitos convites legais, só em 3 eventos que infelizmente não conseguimos tocar porque estávamos sem transporte. Antes de enfrentarmos essa pandemia, por exemplo, nós tínhamos cerca de 6 shows confirmados de março até julho.

A S.U.C. sempre abraçou pautas sociais , como feminismo, por exemplo. Como surgiu essa ideia? Como são os festivais voltado as bandas femininas e como é a recepção do público? Afinal, ainda é difícil ter uma banda com duas mulheres na banda. Isso torna vocês únicos?

André: Tocar pautando as causas sociais sempre foi a proposta do Grindcore e a gente sempre busca falar sobre os problemas dos quais nós vivemos no nosso cotidiano.

Egiliane: Na minha concepção, a S.U.C procura abranger várias causas. Além do feminismo, abordamos raça e gênero, falamos contra o conservadorismo, a burguesia fedorenta, a  exploração de trabalhadores pelas grandes corporações, a direita… Sempre vai ter algum motivo pra gente descarregar o ódio nas nossas músicas. Sobre os festivais, eu vou falar por mim porque vim do metal e comecei a colar em rolês Grind depois que entrei na S.U.C. Tem muita menina discursando nos palcos, fazendo zines, produzindo festivais, então as mulheres têm se apoiado mais, olhamos umas às outras com olhos de admiração, de “mano, que mina foda!” Me atrevo a dizer que hoje é o momento em que nós estamos mais ativas no Underground do que nunca. Talvez na época que eu frequentava roles de Metal as coisas fossem diferentes já que não tenho ido há anos.

Ter uma banda só de mulheres é difícil, pois, para ter integrantes mulheres já é um obstáculo aqui no interior, já que por muitos motivos as mulheres não são incentivadas ou não tem tempo pra aprender a tocar um instrumento por uma série de fatores que dariam um livro (risos). Eu não acredito que o fato de ter mulheres na S.U.C nos torna únicos, mas o que nos torna únicos é a sonoridade que a gente faz, a energia que a gente quer passar quando toca. A gente faz com muita paixão e carinho para as pessoas que nos apoiam tanto, como vocês que estão nos dando esse espaço! Para falar a verdade, esse lance de ser “banda com mulher” particularmente até me incomoda um pouco, porque às vezes algumas pessoas (homens, no caso) só se interessam em nos ouvir mais pelo fato de ter mulheres na formação do que o nosso som e ideias em si, manja? Como se nós, mulheres, não fôssemos capazes de fazer parte desse meio que, por centenas de motivos injustos, era um espaço com predominância masculina. Mas ainda bem que isso está mudando!

Ainda sobre a questão 5, houve retaliação ou descrédito de alguém por vocês terem tomado essa posição? O Grind e o Metal precisam demonstrar lado?

André: Quanto a retaliações, pelo menos a mim, nunca chegou nada, mas acredito que exista sim, afinal o preconceito sempre acontece quando mulheres ocupam espaços que antes eram ocupados apenas por homens e usam desses espaços para expressar seus ideais. Já o Grind e o Metal devem demonstrar lado, pois já não existe mais espaço para quem resolve ficar em cima do muro.

Letícia: A S.U.C, desde o seu nome até suas letras e inspirações, sempre foi uma banda que nasceu justamente do posicionamento contra o capitalismo, contra o fascismo, racismo, homofobia e sexismo, além de abordar outras questões até mesmo existencialistas e estéticas. É protesto em forma de música! Quem curte nosso som e, de forma geral, quem diz que curte Grindcore, já sabe dessa essência e talvez seja por isso que nunca houve retaliações ou algum descrédito. Não criamos a banda e depois mudamos uma postura ou adotamos apenas um lado da resistência, então se alguém se decepcionou, mesmo sem sabermos, ficamos aliviados de atormentar preconceituosos dissimulados: é um prazer desagradar vocês.

Além dessas músicas, vocês já fizeram cover de Extreme Noise Terror e também do Terrorizer. Por que escolheram essas bandas e o que elas representam para vocês?

Egiliane: Posso contar um segredo? Eu não conhecia muito o Extreme Noise Terror antes de entrar na S.U.C justamente porque eu ouvia muito mais Metal que qualquer outra coisa. Eles (S.U.C) foram bonzinhos comigo quando colocaram Find The Arise, do Obituary, por um tempo no repertório (risos). Mas quanto aos nossos covers, é uma forma de homenagear quem tem nos inspirado, como Onslaught, Death e as influências que o Guilherme já citou também. São bandas que a gente respeita muito.

Guilherme: De longe, o disco que mais influenciou a gente foi o World Downfall do Terrorizer (1989). Considero esse disco como marco zero da mistura de Death Metal com Grind e está na lista dos álbuns favoritos de qualquer fã desse tipo de som. Tivemos a ideia de gravar a “Storm Of Stress” devidamente pelo resultado da música nos shows, muita gente gostou da nossa versão e isso nos motivou bastante.

https://www.youtube.com/watch?v=rdRfkdZa-ZA

Leonardo Cantarelli

Headbanger, jornalista formado, autor de 2 livros e mesatenista!

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