ESPECIAL NA COLA DO ALICE IN CHAINS: relatos de uma fã que acompanhou a última turnê sul-americana

— A colaboradora do Portal do Inferno, Priscila Wood, grande fã de Alice in Chains, assistiu a três shows da recente passagem da banda de Seattle pelo Brasil e pela América do Sul: no Rock in Rio, em São Paulo e em Santiago (Chile). A aventura foi marcada por uma série de “primeiras vezes”: foi a primeira vez que ela viu a banda, também o primeiro Rock in Rio e a primeira viagem para fora do país. As sensações de seguir a banda do coração em diversas oportunidades, a Priscila relatou abaixo e compartilha com os leitores do Portal do Inferno, confira:

Uma maratona de viagens para outro Estado ou até País para assistir a alguns shows da sua banda preferida. Acompanhar a mais de uma apresentação de uma banda gringa em uma mesma turnê. Quem nunca sonhou em fazer isso? Parece loucura aos olhos de muitas pessoas, mas com um pouco de planejamento, economia e bastante disposição é possível realizar este tipo de sonho, sim!

Jerry Cantrell - Alice in Chains (São Paulo)
Foto: Eliane Campos

O Alice in Chains encerrou no começo de outubro a sua primeira turnê latino-americana oficial, que iniciou com um show no quarto dia do Rock in Rio 2013, no qual a banda foi co-headliner. Depois incluiu, na parte sul-americana, apenas shows solo em Porto Alegre e em São Paulo, aqui no Brasil, e em seguida Buenos Aires, Santiago, Lima e um show já na América do Norte, na Cidade do México.

O grupo só havia tocado para os latinos antes em duas oportunidades: em 1993, fazendo os dois últimos shows da história com a formação original no festival Hollywood Rock, em São Paulo e no Rio de Janeiro (após estes shows, o baixista Mike Starr foi substituído por Mike Inez), e em 2011, já com o novo vocalista William DuVall (substituindo Layne Staley, falecido em 2002), mas desta vez nos festivais Maquinaria em Santiago do Chile e no SWU, que naquele ano aconteceu em Paulínia, interior de São Paulo. Muitas pessoas que não tiveram a oportunidade de vê-los em 93 lotaram o SWU para prestigiar a banda, 18 anos depois.

A “melhor” parte disso tudo é que eu não estava incluída entre essas pessoas.

Mike Inez - Alice in Chains (São Paulo)
Foto: Eliane Campos

Assim, decidi que da próxima vez que a banda voltasse, eu faria de tudo para ir ao máximo possível de shows. E as coisas começaram a acontecer cerca de um ano depois do SWU, quando o grupo anunciou que faria parte do line-up do Rock in Rio 2013. Em abril tudo foi tomando forma: consegui comprar o tão disputado ingresso na pré-venda, e depois de alguns meses de espera pela confirmação de shows solos deles por aqui, também para Santiago (realizando um antigo sonho de conhecer a cidade) e São Paulo, onde moro. Me arrependo muito por não ter estendido o plano e ter assistido ao show de Porto Alegre, mas isso já é outra história. Vamos acompanhar a maratona de assistir três shows da mesma banda em três cidades diferentes e em um intervalo de 11 dias!

Rio de Janeiro

Festivais são, de fato, diferentes, especialmente quando a banda que você mais quer assistir não é a headliner. A atração principal da noite de 19 de setembro foi o Metallica, e claro que a maioria estava lá para ver a banda da Califórnia. Neste dia, no Palco Mundo, também tocaram Sepultura & Tambours Du Bronx e Ghost. Como a banda de Seattle era a co-headliner, tinha muita gente com camisas de flanela, do Nirvana (inevitável) e até mesmo da própria banda, mas não fui para lá esperando um show muito longo ou com músicas inesperadas: apenas tinha expectativas para uma apresentação com bastante energia. Por ser também o meu primeiro show deles, senti desde cedo aquele nervosismo e gostinho especial que só acontece quando vamos ver músicos que amamos muito pela primeira vez – e o fato de estar num ambiente como um festival acabou aumentando ainda mais a ansiedade.

Alice in Chains (Rio de Janeiro)
Foto: Eliane Campos

Entre tantas primeiras vezes, 2013 também foi o meu primeiro ano no Rock in Rio. O dia estava bem bonito e sem aquele sol escaldante, o que encorajou bastante o grupo de amigos com os quais fui a dar um passeio pelo festival um pouco antes dos shows. Assistimos apenas a uma das atrações do Palco Sunset e assim que Sepultura começou a tocar, já fomos para perto do Palco Mundo – que estava BEM lotado. Conforme as bandas terminavam, mais gente começava a se aglomerar – em parte porque todos queriam ficar pertinho para ver Metallica, é claro. Não cheguei tão cedo e sequer cogitei tentar ficar na grade, pois teria outras oportunidades nos shows subsequentes, então, fiquei em um local intermediário, de onde assisti ao show do Ghost até que bem, mas chegou a um ponto em que nem o telão eu conseguia enxergar mais, devido a quantidade de pessoas se amontoando, então fui um pouco mais para trás para ter uma visão um pouco mais “digna” do Alice in Chains.

William DuVall - Alice in Chains (Rio de Janeiro)
Foto: Eliane Campos

Segurar um público de cerca de 80 mil pessoas não é tarefa fácil nem para a mais experiente das bandas, ainda mais porque a maioria não estava lá apenas pelo grupo de Seattle. No local em que eu estava, por exemplo, muita gente ficou meio parada e assistindo ao Alice in Chains com mais reservas. Mas a banda foi sábia na escolha do (curto) setlist, que contou com 13 músicas e com singles de todos os discos e de um dos EPs, exceto por Rain When I Die e Nutshell, que não são singles, mas que estão entre as preferidas dos fãs e também foram tocadas – a última, em especial, é sempre tocada em homenagem a Layne Staley e a Mike Starr. A banda estava um pouco nervosa no começo, mesmo com a infalível dobradinha inicial de Them Bones e Dam that River, mas aos poucos foi se soltando. Os pontos altos do show (além da Nutshell) foram Man in the Box, Again e Would?, que tiraram todo mundo do chão, literalmente. O clímax foi de fato na Man in the Box, forte candidata ao título de música mais famosa da banda no Brasil, e que fez até quem não estava muito ligado no show agitar bastante. Lembrando que, há exatos 20 anos, a banda subiu no palco da Apoteose, no mesmo Rio de Janeiro, e tocou uma das mais épicas performances dessa faixa em toda a sua história com a formação original, em que o público deu um show à parte, e em 2013, mesmo que de um jeito diferente, a resposta dos presentes no Rock in Rio foi bastante intensa e memorável.

São Paulo

Após sete dias da experiência no Rio de Janeiro, finalmente o momento de ver a banda em um show solo havia chegado. O Espaço das Américas, em São Paulo, tem capacidade para oito mil pessoas, mas nem por isso as coisas foram menos intensas: a casa estava bem cheia, a banda estava mais relaxada desde o começo – até porque lidava com um público só seu – e como os fãs também estavam animados, tudo isso só poderia resultar em uma energia muito boa durante toda a apresentação, que contou com 17 músicas.

Jerry Cantrell - Alice in Chains (São Paulo)
Foto: Eliane Campos

Com exceção de Down in a Hole e Rain When I Die, todas as outras músicas executadas no Rock in Rio também foram tocadas no Espaço das Américas. Muitos lá (eu inclusa) esperavam um repertório parecido com o de Porto Alegre, onde a banda tocou dois dias antes, e que incluía quatro singles do novo disco. Mas se em partes o Alice in Chains mal fez a divulgação da turnê que se propôs (tocando apenas Hollow e Stone), o grupo surpreendeu a todos antes do bis, tocando as clássicas Sludge Factory e Grind. Esta dobradinha emocionou muita gente que estava por lá (eu chorei como uma criancinha nos primeiros acordes), pois foi totalmente inusitada. Entre as duas, destaque para a Sludge Factory, pois DuVall estava muito inspirado e brilhou muito nos vocais, o que ajudou ainda mais na performance.

A banda levou para o palco camisas de futebol do Brasil entregues por fãs brasileiros e com exceção do baixista Mike Inez, todos as vestiram e ainda deixaram expostas as que foram feitas para Staley e Starr. Uma homenagem muito bonita para os músicos que não estão mais entre nós e que são muito queridos por todos os fãs.


Foto: Eliane Campos

E por falar em fãs, eles foram um elemento bem importante durante o show (assim como viriam a ser também em Santiago). O público agitou muito em quase todas as músicas. Como eu estava bem na frente, houve momentos em que ficou difícil de respirar e até de se mexer, tamanha a animação. Houve uma troca de energia muito boa, com destaque mais uma vez para DuVall, que tem um estilo mais intenso de cantar e tocar, de olhar nos olhos do público e desafiá-lo, e que estava bem inspirado naquela noite. Com sua maneira mais discreta, porém intensa, cumpriu muito bem o seu papel de frontman. A cozinha também estava bem unida, com o Sean sempre eficiente e Mike Inez sendo a figura mais carismática da banda no palco. Jerry Cantrell era, como de costume, o mais contido, mas compensou com suas guitarras muito bem afinadas e com a voz já não tão mais suave, mas que é uma das marcas registradas do Alice in Chains.

Sean Kinney - Alice in Chains (São Paulo)
Foto: Eliane Campos

A calma, porém intensa, Rooster fechou o setlist e, assim, a banda saiu do palco. Se eu ainda estava em êxtase por ter visto três músicas do meu disco preferido deles (o homônimo), mal conseguia acreditar que ainda teria uma última apresentação pela frente, e dessa vez no Chile!

Santiago (Chile)

Quase não tive tempo de descansar e já viajei no sábado de manhã, dia 28, para conhecer um pouquinho da cidade antes de aproveitar o meu último show da banda no ano, que estava marcado para a segunda-feira, dia 30. Descansei e conheci um pouco da lindíssima capital chilena no domingo e na manhã da segunda-feira e também me encontrei com alguns fãs da banda no Chile e – pasmem! – com os integrantes do AIC (já havia conhecido dois deles em São Paulo, mas essa é outra história!). Como os chilenos têm a fama de serem os mais fanáticos e dedicados entre os fãs do mundo todo, estava muito ansiosa para assistir a um show no país. Houve até mesmo um boato insinuando que Santiago teria o show mais extenso da turnê até então, com duas horas de duração, mas infelizmente não passou de um rumor.

Movistar Arena
Foto: Ignacio Galvez

A banda tocou na Movistar Arena, que acomoda até 15 mil pessoas e é uma grande redoma – literalmente. O lugar acabou parecendo um caldeirão fervendo, já que quase todos os ingressos foram vendidos. E aí voltamos ao assunto: os fãs chilenos são mesmo diferenciados? Sim, eles são. Era simplesmente impossível ficar no “miolo” do show, ali na frente, sem se machucar. Fiquei na grade, mas bem na lateral direita, porque eles realmente agitam MUITO e cantam TODAS as músicas junto com a banda. O setlist não foi muito diferente do de São Paulo (a banda tocou 18 músicas), e todos estavam meio que aguardando as surpresas, já que em Sampa tivemos Sludge Factory / Grind, na Argentina, dois dias antes, o grupo tocou Junkhead / God Am e na passagem de som em Santiago, eles tocaram Heaven Beside You, o que aumentou as expectativas para que ela tivesse presença no show.

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Antes do bis, a banda revelou uma das surpresas, que na verdade foi a mesma de Buenos Aires: Junkhead. Ela teve uma excelente resposta dos fãs, e durante o icônico refrão (What’s my drug of choice?), mal dava para ouvir o William ou o Jerry cantando, mesmo na grade: só dava para ouvir todo mundo cantando muito alto, desde a arquibancada, até a pista e as laterais. No fim, se muita gente ainda não tinha se recuperado da emoção de assistir a um dos grandes clássicos do Dirt ao vivo, quando os primeiros acordes de Love, Hate, Love, do Facelift, foram tocados, todo mundo foi à loucura. E mais uma vez DuVall honrou muito bem o legado de Staley, cantando com bastante precisão e feeling a música mais desafiadora do catálogo do Alice in Chains. Com certeza uma noite muito especial para a banda (já que o Mike Inez disse que está no TOP 5 de arenas que ele tocou na vida), para os chilenos – e para mim também.

Sean Kinney - Alice in Chains (Santiago)
Foto: Javier Valenzuela

Foi uma grande experiência perceber como os shows até mudam um pouco de país para país e de situação para situação, mas que a banda em si possui a mesma paixão para tocar. Eles não mudaram radicalmente nenhuma atitude por estarem lidando com públicos diferentes ou por serem ou não headliners. Tocaram da maneira que tocam, independentemente do tamanho da casa de show ou se é para um festival, e isso é bastante animador, pois me senti muito “bem recepcionada” nas três apresentações.

Jerry Cantrell - Alice in Chains (Santiago)
Foto: Ignacio Galvez

Mas nem tudo são flores, já que falando dos três shows em que fui, em três cidades diferentes, a banda acabou explorando setlists muito parecidos e não tocou nada do disco novo além de Hollow e Stone. O grupo usa o argumento de que sempre tem alguém que nunca viu a banda e que nunca verá depois, por isso acaba tocando muitas “das mesmas”. Acredito que muitos fãs gostariam de ter ouvido pelo menos as outras duas músicas do The Devil Put Dinosaurs Here que foram tocadas em Porto Alegre, o único lugar da turnê latino-americana inteira em que a banda tocou quatro faixas do disco (na Argentina eles tocaram três: Hollow, Stone e Phantom Limb, e no restante, apenas as duas primeiras). Ou até mesmo mais “lados B”, pois o Alice in Chains veio para cá em 2011 e agora em 2013, ou seja, em um intervalo de dois anos, mas isso não é algo cuja probabilidade se repetirá tão cedo. Acredito que o público latino merecia que a banda fosse mais ousada e desse mais alguns toques especiais nos shows.

Mike Inez - Alice in Chains (Santiago)
Foto: Ignacio Galvez

O que compensaram essas repetições foram mesmo as poucas, porém muito bem-vindas, surpresas nos shows de São Paulo e de Santiago, com clássicos imortalizados pela voz do Layne que muitos fãs da América do Sul nunca imaginavam ver ao vivo. Essas faixas até são tocadas vez ou outra nos Estados Unidos e na Europa, mas aqui embaixo a coisa é bem diferente, então ter presenciado esses momentos foi bastante especial.

MemorabíliaFoto: Priscila Wood

Se valeu ter viajado tanto para ver a mesma banda tocando repertórios parecidos em um intervalo tão curto? Sim, valeu e muito. Não só pela banda estar no coração, mas pelas viagens em si, já que acabei conhecendo outro país e cultura, e também pela postura, feeling e profissionalismo do Alice in Chains no palco, que animam bastante. Sei também que muitos acham que é preciso ser rico para conseguir fazer isso, mas a longo prazo, mesmo que juntando pouco por mês e visando uma próxima turnê , em três ou quatro anos, por exemplo, é possível sim, ir até mais longe do que fui. É necessário ter foco, mas garanto que é uma sensação sem igual poder se aventurar junto com a banda do seu coração, mesmo que seja apenas da pista.

Espero poder repetir essa maratona muito em breve.