Death to All – Via Marquês – São Paulo/SP

Existem muitas bandas com as quais sonhamos em ver um espetáculo ao vivo, mas por diversos motivos sabemos que não será possível: ou somos jovens demais e a banda é antiga demais, ou a banda é contemporânea, mas acabou repentinamente, ou ela é muito desconhecida e não toca além de seus limites locais.

No caso do Death, uma das bandas propulsoras do death metal e que era idealizada totalmente por Chuck Schuldiner (falecido em 2001), os fãs receberam um presente: em 2012, o projeto tributo Death to All Tours, que reúne músicos de diversas formações da banda mais um determinado vocalista/guitarrista para tocarem pelo mundo e levarem a música e mensagem de Chuck, mesmo após tantos anos desde o disco de inéditas final da banda (lançado em 1998).

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Death to All (foto: Costábile Salzano Jr. – The Ultimate Music)

A formação mais recente da turnê contava com Paul Masvidal na guitarra, Sean Reinert na bateria, Max Phelps na guitarra/vocal e Steve DiGiorgio no baixo (a formação exata do disco Human, menos o Max), mas para os shows na América do Sul, o guitarrista Bobby Koeble entrou no lugar de Paul e o baterista Gene Hoglan no lugar de Sean (quase a formação do Symbolic), e foi esse grupo de músicos que subiu ao palco do Via Marquês no feriado da Independência do Brasil, em 7 de setembro. A banda já tinha tocado no dia anterior, em Curitiba, e estas foram as únicas datas fechadas para shows aqui.

As portas do local, que deveriam ter sido abertas às 19 horas, abriram com mais de meia hora de atraso, mas logo as bandas de abertura subiram juntas no palco para esquentar o público. O D.R.E e Test, duas bandas brasileiras que contam com o mesmo baterista na formação, tocaram juntas, usando a bateria como base para músicas diferentes em cada lado do palco: quem estivesse do lado esquerdo, ouviria o show Test, e quem estivesse do lado direito, ouviria o show do D.R.E.

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Death to All (foto: Costábile Salzano Jr. – The Ultimate Music)

Após a abertura, a casa começou a encher, de fato, e 10 minutos antes de a banda entrar, as capas dos discos do Death e algumas fotos e um trecho de um vídeo com Chuck começaram a rolar nos telões, só aumentando a ansiedade. Às 21 horas, a banda principal finalmente entrou, abrindo o show com um pedaço de Out of Touch.

O que se viu depois disso foi um belíssimo e justo passeio por toda a discografia da banda, sem terem deixado nenhum disco de fora. The Philosopher, um clássico do disco Individual Thought Patterns, foi a primeira música tocada na íntegra na noite, o que já agitou todo o público.
Enquanto algumas obras dos primeiros discos despertaram bastante comoção e resposta da audiência, como o mend de Spiritual Healing e Within the Mind, Leprosy, Left to Die e a magnífica Living Monstrosity, as músicas dos últimos discos também foram muito bem recebidas e cantadas com muita empolgação, como Bite the Pain, do último disco, e Zero Tolerance.

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Death to All (foto: Costábile Salzano Jr. – The Ultimate Music)

Justamente após a Zero Tolerance, Max Phelps saiu de cena e o alemão Steffen Kummerer, também vocalista e guitarrista, que já havia tocado anteriormente com o DTA e que toca na banda Obscura, subiu no palco para tocar quatro músicas, começando com Symbolic. A reação do público aos primeiros riffs foi uma das mais memoráveis da noite, e se Steffen não parecia tão entrosado e familiarizado quanto Max, a agitação da pista compensou.

Apesar de esta formação estar reunida há pouco tempo, não tinha como sentir que havia algo fora de tom. Max tem uma postura discreta, mas bastante eficiente no palco (bem próxima da de Chuck, em vida), Gene é um monstro na bateria e Bobby e Steve DiGiorgio esbanjam tanta simpatia quanto técnica na guitarra e no baixo. Por falar em DiGiorgio, ele foi o verdadeiro frontman da noite, sempre correndo pelo palco, interagindo com o público, apresentando os músicos e se aproximando a todo momento das grades e pedindo incessantemente muita destruição. Houve até um momento de descontração, no qual Max jogou uma camiseta na bateria de Gene e o sortudo que subisse ao palco primeiro a ganharia.

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Death to All (foto: Costábile Salzano Jr. – The Ultimate Music)

Após o bis, Max finalmente voltou para tocar mais “três” músicas, e a reação do público foi brutal em todas: a primeira foi mais um mend entre Zombie Ritual e Baptized in Blood, clássicos do primeiro disco do grupo, Scream Bloody Gore. Em seguida, Crystal Mountain foi mais uma cantada em uníssono, e Pull the Plug, do icônico Leprosy fechou a noite com maestria.

A sensação que ficou no peito era a de que se um espetáculo deste nível tinha sido tão bom, “imagine só com o Chuck”. O objetivo destes shows é o de fazer um tributo a ele, e não há como dizer que isto não está sendo feito. Um setlist bastante convidativo, músicos que dispensam comentários e um comportamento no palco que faz apenas os fãs agradecerem pela oportunidade de assistirem a um show com tanto feeling, que pode não satisfazer totalmente o fã mais radical, mas que não deixa nenhum gostinho amargo na boca no final da última música.

Setlist:
Out of Touch
The Philosopher
Leprosy/Left to Die
Living Monstrosity
Suicide Machine
In Human Form
Lack of Comprehension
Spiritual Healing/Within the Mind
Flattening of Emotions
Symbolic (com Steffen Kummerer)
Zero Tolerance (com Steffen Kummerer)
Bite the Pain (com Steffen Kummerer)
Overactive Imagination (com Steffen Kummerer)

Bis:
Zombie Ritual/Baptized in Blood
Crystal Mountain
Pull the Plug