Solid Rock – 13/12/2017 – São Paulo

Festival de rock é sempre bem-vindo e, sempre que surge um novo, o Portal do Inferno está lá para cobrir.

São Paulo presenciou o nascimento do Solid Rock, evento que conta com três bandas clássicas de rock em uma moderna arena, como o Allianz Parque, situado na Barra Funda, região de fácil acesso para quem foi curtir esse show. A produção apostou num line-up que contemplava o classic rock americano e inglês, só com bandas da velha guarda.

Há poucos dias do festival, houve a substituição de um dos headliners. Os americanos do Lynyrd Skynyrd tiveram que ficar de fora por conta de uma doença repentina da filha de um de seus guitarristas e tivemos a confirmação do Cheap Trick de última hora.

Tesla

Abrindo a noite, às 18h30, o quinteto californiano Tesla subiu ao palco para tocar seu hard rock anos 80. A estréia da banda em solos paulistanos foi feita sob poucos olhares pois menos de 20% da capacidade total da arena havia chegado neste horário. O show durou menos de uma hora e contou com alguns hits como “Love Song” e “Modern Day Cowboy”. O vocalista Jeff Keith continua cantando muito, mas não conseguiu muito apelo junto ao público, que já aquecido e em maior número estava ansioso para conferir a outra estréia da noite.

Cheap Trick

Os americanos do Cheap Trick foram chamados às pressas após a desistência do Lynyrd Skynyrd. Sorte nossa ver essa tour do Cheap Trick, uma banda tão grande nos EUA, mas quase desconhecida aqui. Já foram citados como grande influência por bandas do calibre de Nirvana, Pearl Jam e Motley Crüe. Eles vem ao país promover o último disco, We’re All Alright!, lançado em Julho de 2017, e obteve ótima repercursão pelo público e imprensa, sendo um lançamento relevante para a já longa discografia deles.

O show começou pegando fogo. A banda americana mostra um hard rock arisco, sujo com pegadas pop, voz rasgada e com aquele refrão grudento fácil de cantar. Dando as boas-vindas, a primeira foi “Hello There”, seguida de “Big eyes”, do disco In Color, de 1977. O guitarrista Rick Nielsen comandava a festa fazendo caras e bocas, instigando o público e entrar cada vez mais no show deles.

“We’re Cheap Trick and it’s our first time in São Paulo.”, anuncia o vocalista Robin Zander antes de tocar “You Got It Going On” do disco novo, mostrando que o tempo só fez bem a banda.

“California Man”, originalmente da banda The Move, foi o primeiro dos muitos covers tocados na noite, seguida de “Ain’t That a Shame” do Fats Domino. Antes de chamar a próxima música, Rick pediu para o público acender as luzes do celular para acompanhar uma balada de 1982, “If You Want My Love”, deixando o estádio todo iluminado, criando um clima especial para acompanhar o som acústico que tocava no palco. Quem curte o famoso hard rock farofa chorou nessa hora.

A festa estava tão boa que o guitarrista do Tesla, Frank Hannon, foi convidado para fazer o backing vocal da “She’s Tight”. As duas últimas fazem parte do disco One on One, de 1982.

Em uma das várias trocas de guitarras, Rick Nielsen pega uma guitarra amarela toda estilosa, escrita “Raise Hell”, para tocar mais algumas músicas atuais: “When I Wake Up Tomorrow” do também bom disco Bang, Zoom, Crazy… Hello que tirou a banda do hiato em 2016 e depois “Long Time Coming” do disco novo. Para alegria do público brasileiro, eles tocaram o tema de abertura do seriado “That’s 70’s Show”, que fez bastante sucesso por aqui. O cover do Big Star, “In the Street”, foi a música que mais agitou o público.

Da formação original, ainda temos o baixista Tom Petersson assumindo o posto de vocalista para o cover cheio de classe do Velvet Underground, “I’m Waiting For The Man”. Outra versão foi a natalina “Run Rodolph Run” do mestre Chuck Berry. Para fechar, a pop punk “Surrender” e para finalizar “Goodnight Now”. Incrível como uma banda deste nível nunca tinha vindo para o Brasil. Showzaço!!

Deep Purple

Ninguém sabe como lidar com o final de um relacionamento, e essa nova tour do Deep Purple é divulgada como a última de sua carreira. Parte da trinca sagrada do hard rock inglês (as outras bandas são Black Sabbath e o Led Zeppelin) e única em ação, eles voltam para a cidade que tanto tocaram nesses anos e já começaram em clima de jogo ganho. A tradicional abertura com “Highway Star” já colocou o estádio todo para balançar a cabeça e cantar junto da banda. Chance do vocalista Ian Gillan mostrar seus dotes vocais, dando vários gritos agudos e tudo mais que é parte inconfundível de seu estilo de cantar.

Homenageando o disco Machine Head, de 1972, “Pictures of Home” foi a segunda das cinco músicas do álbum que foram tocadas na noite. Ela teve um duelo interessante entre o guitarrista Steve Morse e o tecladista Don Airey, os dois últimos músicos a entrar na banda. Em pouco tempo de show eles já mostraram que estão afiados e prontos para deixar qualquer platéia de queixo caído. Voltando um pouco mais no tempo, de 1970, eles tocaram a rocker quase heavy metal “Bloodsucker”. Depois colocaram todo mundo para dançar com “Strange Kind of Woman”, de 1971.

Com um pequeno discurso em homenagem ao falecido tecladista Jon Lord, Ian Gillan anunciou a música “Uncommom Man” do disco Now What?!, de 2013. Seu substituto, o também britânico Don Airey, foi o responsável por não deixar a banda parar e, assim como Jon, é um exímio músico e profissional de longa data, requisitado por vários ícones do rock. Como trombetas faraônicas, o som de seu teclado nos leva para um mundo a parte, seguido de um solo épico de Steve Morse, e o som que já era bom na versão de estúdio ficou muito melhor ao vivo. Ao final da música, seguiu um improviso jazz culminando na introdução da música Lazy, outra faixa do disco Machine Head.

Junto da despedida do palco, o Deep Purple também lançou um disco de músicas inéditas em 2017, chamado de inFinite. A única música do álbum que foi executada foi “Birds of Prey”. Vale mencionar a qualidade da iluminação e do telão de led atrás da banda, que deixou o show ainda mais incrível, já que a faixa é meio espacial.

“Knocking On Your Back Door” é sempre uma ótima pedida, animando o púbico para a viagem que viria em seguida. Todos os músicos da banda deixam o palco e somente o tecladista Don Airey ficou para um solo de mais de 5 minutos que fez o estádio parar para ele exibir sua versatilidade sobre as teclas. Tivemos um pouco de ópera, caos e pianos sublimes, seguidos de mais caos no Hammond dele. Tivemos espaço para uma homenagem ao Brasil com a introdução de “Tico Tico no Fubá” e depois tocando a melodia de “Sandália de Prata” de Ary Barroso. Sim, Ary Barroso!!! Ver o público cantando “Isso aqui ô ô, é um pouquinho de Brasil iá iá” em um show de rock é para ser louvado. Em época de intolerância, poder ouvir um samba em uma arena lotada de camisetas pretas é histórico. Ao final de seu solo ele começou uma das introduções mais icônicas do Deep Purple: como é bom ouvir “Perfect Strangers” ao ar livre e todo mundo cantando seu refrão como se não houvesse o amanhã.

Para finalizar o show e a homenagem ao disco Machine Head, tivemos a dobradinha “Space Truckin”, com a cozinha Iann Paice e Roger Glover quebrando tudo num improviso insano para depois tocarem um dos maiores clássicos do estilo rock que tem o riff de guitarra mais conhecido de todos os tempos: “Smoke on The Water”. Nenhum show do Deep Purple pode ficar sem ela. Hino máximo e conhecida por todos, foi o ponto alto desta edição do festival Solid Rock. Não teve uma alma viva dentro do estádio que não estava cantando abraçado na pessoa mais próxima ao seu lado. Como a canção é ultra-famosa, entra no ramo das músicas que você acaba deixando de lado por não aguentar ouvir mais, porém quando ela é tocada pelo Deep Purple, parace que você está ouvindo ela pela primeira vez.

Uma pausa para o tradicional bis e a banda volta com um improviso “The Peter Gunn Theme” seguido da música “Hush” cover do Joe South, mas famosa por sua versão com o Purple. Seguidos de….? Mais um duelo Morse/Airey. Um fazia um tema, o outro respondia e assim seguiu durante uns bons minutos.

Pergunta: qual seria a melhor dupla de guitarrista/teclado atualmente tocando por ai? Eles são os principais. Nas minhas anotações sobre o show, marquei essa parte como “Satanás dos Teclados”. Imagina só o absurdo do peso que aquele Hammond faz nas caixas de som do estádio. “Black Night” fechou o show em alto estilo. Famosos pela qualidade de suas apresentações ao vivo, se vão quase 50 anos de banda e eles estão melhores do que nunca.

Esperamos que aconteça mais uma edição do Solid Rock, que começou muito bem com ótimas apresentações.

Set-list – Deep Purple
1. Highway Star
2. Pictures of Home
3. Bloodsucker
4. Strange Kind of Woman
5. Uncommon Man
6. Lazy
7. Birds of Prey
8. Knocking at Your Back Door
9. Keyboard Solo
10. Perfect Strangers
11. Space Truckin’
12. Smoke on the Water
Bis
13. Hush
14. Black Night

Set-list – Cheap Trick
1. Hello There
2. Big Eyes
3. California Man (The Move cover)
4. You Got It Going On
5. Ain’t That a Shame (Fats Domino cover)
6. If You Want My Love
7. She’s Tight
8. When I Wake Up Tomorrow
9. Long Time Coming
10. Baby Loves To Rock
11. In the Street (Big Star cover)
12. Stop This Game
13. Bass Solo
14. I’m Waiting for the Man (The Velvet Underground cover)
15. The Flame
16. I Want You to Want Me
17. Dream Police
18. Run Rudolph Run (Chuck Berry cover)
19. Surrender
20. Goodninght Now

Set-list – Tesla
1. Edison’s Medicine (Man Out of Time)
2. The Way It Is
3. Heaven’s Trail (No Way Out)
4. Signs
5. Love Song
6. Little Suzi
7. Modern Day Cowboy