Foram necessários exatos seis anos e um dia para que pudéssemos ver Judas Priest e Whitesnake juntos novamente, no Brasil. Entretanto, as duas bandas estiveram aqui, em 2008, com suas próprias turnês, o que fez esse intervalo parecer menor do que realmente foi. Assim como em 2005, a Arena Anhembi frecebeu estes dois grandes times de músicos, de estilos tão diferentes, mas que conseguiram unir com inteligência o melhor do hard rock e do heavy metal.

Whitesnake

Seria injusto chamar o Whitesnake de “banda de abertura” e apenas mencionar rapidamente a sua passagem neste review. Por toda a sua história, por todas as realizações no mundo da música nas últimas três décadas, David Coverdale e companhia merecem seu próprio destaque. Desde 1978, quando foi formado, inúmeros músicos passaram pelo Whitesnake. Doug Aldrich e Reb Beach (guitarras), Michael Devin (baixo), Brian Tichy (bateria) e Brian Ruedy (teclado) se uniram a Coverdale e lançaram o aclamado álbum Forevermore, no começo deste ano. Vale destacar a vasta experiência destes profissionais: Aldrich, por exemplo, já tocou com Dio; Beach, que está no Whitesnake desde 2004, já fez parte do Winger e Dokken; e Tichy trabalhou com artistas importantes como Billy Idol, Gilby Clarke e Pride & Glory.

Às 20h em ponto, a euforia tomou conta da plateia e My Generation, do The Who, anunciou o começo do show. Em apenas 13 músicas, o Whitesnake conseguiu passar por diversas fases da banda, mesclando as músicas mais agitadas com as baladas mais apaixonadas. Aliás, o tema preferido do Whitesnake, o amor, esteve presente o tempo todo do show, nas canções, nas reações do público ou nas respostas da banda. Com um setlist reduzido, muitas músicas boas ficaram de fora, como a baladíssima The Deeper the Love, que estava nos últimos repertórios dos shows que a banda fez nos Estados Unidos. Na plateia, uma fã com uma faixa pedia esta música e David Coverdale cantou à capela os versos “And the deeper the love the stronger the emotion… and the stronger the love the deeper the devotion…” e este pequeno gesto foi suficiente para levar o público ao delírio e à decepção também, já que ficou por isso mesmo.

O ponto negativo ficou para a qualidade do som. Quem ficou na pista comum se frustrou, pois o volume oscilava em proporções absurdas. Em determinados momentos, durante as músicas, era possível conversar com a pessoa ao lado, em um tom normal e ser ouvido perfeitamente. Apesar dos problemas técnicos, a galera não desanimou e acompanhou o quase sexagenário Coverdale, que já não canta com tanto poder como no auge da sua carreira, em todas as músicas e vibrou com o solo de bateria e as baquetas voadoras de Tichy e o duelo entre Aldrich e Beach.

Os covers de Deep Purple, Soldier of Fortune, cantando à capela, Burn e Stormbringer anunciaram o fim da apresentação. Chegava a hora de preparar o palco para o tão esperado show dos Metal Gods. Foi interessante perceber que, mesmo sendo a tal “banda de abertura”, muita gente foi nesse show especialmente para ver o Whitesnake. Isso mostra como o hard rock ainda tem força entre o público brasileiro. E fica aí o desejo de ver mais uma apresentação completa deles.

Judas Priest

Tour de despedida. O que vem a mente quando se pensa nisso? Músicas a muito não tocadas? Todos os clássicos possíveis? Uma mega produção? Acredito que tudo isso e mais um pouco. Inclusive o fato de ser apenas marketing, como já nos acostumamos a ver. Anúncios de abandono de estrada se tornaram comuns seguidos de sua volta. E talvez seja esse o fator que tenha levado um número considerável pequeno a Arena Anhembi para essa noite. A produção chegou a oferecer ingressos com desconto, devido a baixa procura pelos mesmos. E sobre isso a única coisa que posso dizer é que, quem pagou para ver a última tour do Judas, se assim mesmo o for, não se decepcionou! Ok, dos itens citados como expectativa, apenas um se confirmou. Mas isso não impediu que a lenda viva realizasse mais uma grande apresentação.

Um grande pano com a capa de Epitaph (último álbum da banda) foi erguido a frente do palco, invertendo-se a lógica do background para uma espécie de “front ground”. E este permaneceu esticado a frente do palco quando as primeiras notas se fizeram ouvir. Rapid Fire abriu o show, seguido por Metal Gods. E, até aí, o que víamos era um palco muito bem estruturado, iluminado, abrigando uma banda coesa e gelada. Sim, para mim, o início do show apontava para uma apresentação maçante. Porém, o show parecia começar a pegar ritmo como show no melhor sentido da palavra. E isso realmente se concretizou. Com uma interação perfeita entre banda e telão (situado atrás da bateria de Scott Travis), cada música executada era apresentada com a capa do CD onde a mesma foi gravada. Isso criava um clima de colocação histórica perfeito, até para aqueles que não são fãs a ponto de realizar essa identificação por si. Se não bastasse, aos poucos alguns itens foram aparecendo, como lança-chamas nas laterais do palco, lasers traçantes que surgiam e davam um ar de futurismo a apresentação e canhões de fumaça. A cada nova música percebia-se mais o cuidado com a produção do espetáculo propriamente dito que a banda teve. Halford aparecia constantemente com um novo figurino, trocando os mesmos várias vezes durante as quase duas horas de show. Jaquetas, coletes, sobretudos, sempre muito brilhantes e chamativos, como já é costume a muitos anos. O show ganhava força até que, em Starbreaker houve um erro grotesco na intro por alguns segundos. Erro este que acredito a maioria esmagadora de quem esteve ali mal percebeu ou lembra-se, pois a banda, com o profissionalismo que lhe é peculiar, agiu como se nada tivesse acontecido. Um erro muito parecido voltou a acontecer em The Sentinel. E por que citar esses erros? Porque talvez tenham sido os únicos nessa apresentação. É fato que Halford já não tem mais aquela voz, que sua potência mal chega a metade do que foi a uns anos atrás. Mas ele é Rob halford. E mesmo num mal dia, canta e sempre cantará mais que muitos vocalistas por aí. E sendo isso, implicitamente carrega a alcunha de um dos maiores frontmans da história, sem precisar fazer muito para ter milhares de pessoas em suas mãos. Até mesmo o fato de não cantar Breaking the Law a coisa de uma década acaba jogando a seu favor no palco. Passou de algo estranho para um momento esperado. Assim como a histórica entrada com sua Harley Davidson, momento que antecede Hell Bent for Leather. Ok, a imagem de Halford todo de couro, com aquele quepe, dando chicotadinhas na moto chega a ser… deveras homosex! Mas, assim como todo o resto citado, já passou a fazer parte dos momentos esperados. E falando em momentos esperados, acredito nenhum ser mais do que o solo de bateria de Scott, que todos sabem ser a intro para Painkiller, talvez o maior clássico da história do heavy metal. A reação do público é impar nesse momento. Logo atrás de mim abriu-se uma roda, e eu pude ver o tamanho do sorriso em todos que nela estavam! Quantas bandas no mundo são capazes de causar uma roda onde as pessoas não estão lá para se socar? E, como que programado, poucos minutos após a meia noite a banda executa Living After Midnight, que indicava o final do show.

O que fica de mais marcante do show é sem dúvida alguma a extrema produção do mesmo. A incrível precisão na condução das músicas que Scott apresenta, fazendo até mesmo os grandes momentos de Painkiller soarem como se qualquer iniciante pudesse executar. Aquela mesma formatação, usada a anos, com a cozinha socada ao fundo, as guitarras ao lado e Halford indo para onde bem entender. E este ainda sendo um Deus do Metal, mesmo sem metade da potência que já teve. E, para quem consegue colocar bom humor nas situações, ele está mais diva do que nunca! E mesmo assim, muito mais “macho” que muito black metaller de corpse paint por aí.

Setlist Whitesnake:

Best Years
Give Me All Your Love
Love Ain’t No Stranger
Is This Love
Steal Your Heart Away
Forevermore
Duelo de guitarras
Love Will Set You Free
Solo de bateria
Here I Go Again
Still of the Night
Soldier of Fortune (Deep Purple cover)
Burn / Stormbringer (Deep Purple cover)

Setlist Judas Priest:

Rapid Fire
Metal Gods
Heading Out to the Highway
Judas Rising
Starbreaker
Victim of Changes
Never Satisfied
Diamonds & Rust (Joan Baez cover)
Dawn Of Creation
Prophecy
Night Crawler
Turbo Lover
Beyond the Realms of Death
The Sentinel
Blood Red Skies
The Green Manalishi (Fleetwood Mac cover)
Breaking the Law
Solo de bateria/Painkiller

Bis:

The Hellion/Electric Eye 
Hell Bent for Leather
You’ve Got Another Thing Comin’

Bis:

Living After Midnight

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Renata Santos

Sou formada em jornalismo e colaboro com sites de música há quase dez anos. Integro a equipe do Portal do Inferno desde 2011.

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