No começo do ano, as bandas Helloween e Gamma Ray se reuniram e partiram para uma série de shows em conjunto pela Europa, a Hellish Rock Tour – pt. II. Entre os meses de fevereiro e abril, a turnê contou com a participação especial da brasileiríssima banda Shadowside. Foram mais de 30 shows em 19 países ao lado dos ícones do metal melódico alemão, muitos, inclusive, com ingressos esgotados, e a banda mostrou, mais uma vez, o peso e a alta qualidade de suas músicas. A reação do público do Velho Continente não poderia ser melhor: por onde passou, a Shadowside deixou a sua marca e conquistou ainda mais fãs.

Agora, de volta ao Brasil, Dani Nolden (vocal), Raphael Mattos (guitarrista), Fabio Carito (baixo) e Fabio Buitvidas (bateria) se preparam para rodar o País com a parte final da turnê do aclamado álbum Inner Monster Out. Em São Paulo, o show acontece no dia 26 de maio, na Via Marquês, ao lado do SupreMa e a Dani dá o recado: “vamos fazer nesses shows o que sempre quisemos no Brasil e nunca tivemos a oportunidade. Quem perder, não verá isso de novo”. Recado dado, confira o papo que a bela vocalista teve com o Portal do Inferno, comentando sobre a turnê europeia, o bom momento nacional e internacional que a Shadowside vivencia e planos para o futuro.

 Dani Nolden (Shadowside) na Finlândia

Portal do Inferno: Olá, Dani. Primeiramente, parabéns pela ótima repercussão nacional e internacional que a Shadowside teve na Hellish Rock Tour! Como sabemos, essa não foi a primeira experiência da banda na Europa. Em 2010, vocês excursionaram com o W.A.S.P. e agora acabaram de voltar desse grande giro com o Helloween e o Gamma Ray. Gostaria que você fizesse um comparativo dessas duas turnês. O que mudou, na sua opinião, no cenário europeu para as bandas, e o que mudou na própria banda?
Dani Nolden: Eu não senti grandes diferenças com relação ao cenário, o público continua indo em peso aos shows, mesmo nos países onde as pessoas estão realmente sem dinheiro por causa da crise. Esperávamos ver um número reduzido de público na Espanha, Itália e Grécia, mas as casas estavam cheias, ainda mais que na primeira turnê que fizemos em 2010. Naquela ocasião, poucas pessoas nos conheciam, porém agora muita gente veio falar conosco dizendo que nos conheceram naquela época, pudemos perceber que os fãs europeus realmente seguem as bandas quando gostam delas. Nós estamos ainda mais maduros hoje como banda, essa é a maior mudança que podemos observar a cada turnê. Quem assiste ao show da Shadowside tem até a impressão de que é tudo bem ensaiado, que planejamos o que vamos fazer em cada momento do show, mas não é… a realidade é que estamos tão bem entrosados que sabemos o que cada um gosta de fazer em cada parte da apresentação, então, sabemos o que fazer baseado nisso. Por exemplo, sei quando o Raphael gosta de ir para frente e solar, conheço todas as viradas do nosso baterista Fabio, sei quando eles se empolgam e correm pelo palco, e então fico no centro, na frente, enfim, é como um time de futebol que sabe exatamente para onde o outro vai correr (risos). Somos uma banda muito mais segura no palco.

P.I.: Como foi a recepção do público europeu com a Shadowside? Quem segue a banda no Facebook, acompanhou relatos de que a galera foi bastante empolgada durante as apresentações. Isso surpreendeu vocês? Antes de embarcar para a Europa, vocês fizeram algum trabalho de divulgação da banda e do Inner Monster Out para o público local?
Dani: Foi excelente! Os fãs europeus foram realmente receptivos. Nós sabíamos mais ou menos como seria a reação das pessoas em alguns países onde já tocamos algumas vezes, como Espanha, porém onde ainda não havíamos nos apresentado, é claro que não tínhamos ideia de como seria a reação, então foi uma surpresa maravilhosa! Estivemos em alguns países que foram novidades para nós, como Bulgária, Suécia, República Tcheca e sabemos como o leste europeu costuma ser extremamente caloroso e insano. Esperávamos um público contido na Suécia e encontramos o contrário, fomos recebidos com pessoas cantando, nos acompanhando com palmas e gritos, especialmente em Gotemburgo, que foi onde gravamos o Inner Monster Out e fomos acolhidos pelos fãs como se fossemos uma banda da cidade. Não fizemos nenhum trabalho específico para a turnê, apenas trabalhamos na divulgação do álbum quando ele foi lançado por lá e encontramos muita gente que estava ansiosa pela nossa apresentação. Sinto que o álbum foi muito bem por lá, a opinião de quem já nos conhecia era unânime, todos consideram o Inner Monster Out nosso melhor trabalho até hoje e quem não nos conhecia chegava ao nosso merchandising dizendo “o mais novo, por favor” (risos). Estamos muito felizes com o resultado da turnê e do álbum.

P.I.: E como foi a experiência de dividir o palco com duas bandas ícones do metal melódico, Helloween e Gamma Ray? Essa trinca pode se repetir futuramente?
Dani: Eu espero sinceramente que sim! Ainda não conversamos sobre a possibilidade de outros shows, mas eu gostaria muito. Se formos convidados, aceitaremos com certeza. Nos sentimos muito honrados dividindo o palco com eles, são bandas que fizeram parte da nossa formação musical, todo mundo que era adolescente há dez anos escutava Helloween, Gamma Ray e bandas do gênero e nós não éramos diferentes. Até hoje gostamos de bastante coisa e foi muito legal ter a oportunidade de tocar com eles. Eles são pessoas simples, tranquilas e não tivemos qualquer tipo de problema, tanto com os músicos quanto com as suas equipes, que acabaram trabalhando conosco durante a turnê.

Shadowside no Olympia

P.I.: Qual foi o momento ou o show mais especial desta turnê? E qual foi a situação mais complicada? Vimos nas redes sociais da Shadowside que, inclusive, você ficou doente e, mesmo assim, seguiu com os shows. Pode comentar a respeito?
Dani: Eu já saí do Brasil doente, na verdade. Estava com uma gripe forte e dor de garganta, que não passava com anti-inflamatórios e foi ficando cada vez pior. Decidi ir a um hospital antes do show de Bologna, na Itália, fui muito bem tratada e passei a tomar os remédios corretos e fiquei bem depois de alguns dias. O médico me tranquilizou dizendo que não seria arriscado cantar daquela forma, pois a laringe estava bem, mas avisou que ainda continuaria incomodando bastante por alguns dias. Estava bem dolorido, bem sensível, mas cancelar um show não é uma opção. Eu só pediria para cancelar um show se realmente não conseguisse cantar, se fosse prejudicar demais a apresentação ou minha carreira. Com o OK do médico para cantar com segurança, eu nunca deixaria de seguir em frente. Essa foi uma das situações mais complicadas durante os shows, porque não sabíamos se no dia seguinte eu acordaria mal demais para fazer o show, o que felizmente não aconteceu. Momentos especiais não faltaram, mas um dos mais marcantes, para mim, foi o show de Paris. Fomos a primeira banda brasileira de metal a tocar no Olympia, casa que foi fundada em 1888, e por onde passaram artistas como os Beatles, Elis Regina, Janis Joplin e Tom Jobim. Foi uma ocasião incrível, com os fãs realmente animados e coroando a noite.

P.I.: Vocês registraram algo em áudio ou em vídeo durante essa turnê, para gravar um CD/DVD ao vivo? Pretendem lançar algum material mais completo com arquivos dessa viagem?
Dani: Fizemos algumas fotos e vídeos, mas nada para um DVD, esse é um material que lançaremos para os nossos fãs aos poucos, nas nossas redes sociais e no YouTube. Queremos uma ocasião realmente única para lançar um DVD, com produção especial para isso, set list longo, feito para o DVD mesmo. Durante a turnê, nosso tempo de palco era curto. Talvez a gente coloque algumas coisas como extras em um futuro lançamento.

P.I.: O Brasil já se equipara ao padrão europeu de produção e organização de longas turnês? Se não, o que é necessário ainda para melhorar?
Dani: Não, não estamos nem próximos! A pior casa onde tocamos na Europa é do nível do Carioca Club em São Paulo, por exemplo. O Carioca é uma casa excelente, e onde tocávamos lá era desse nível para cima. Existe muito pouco disso no Brasil e é impossível fazer uma turnê de 36 datas por aqui fazendo shows apenas desse porte ou maiores. Com relação a equipamentos, aqui ainda é tudo muito mais caro, porém não é mais inacessível e os produtores de shows ainda não entendem a importância de qualidade de primeiro mundo nos shows aqui no Brasil. O público não tem que saber por que o show da banda brasileira está inferior ao da estrangeira, ele só sabe que está, não sabe o porquê, mas apenas que está. E muitas vezes isso é porque qualquer banda estrangeira que venha pra cá, por menor que seja, exige equipamento de primeira linha, rider de iluminação para um espetáculo e não só para subir e tocar. Esse é o grande problema do Brasil, as casas ainda não têm a mesma estrutura e não temos o costume de permitir que as bandas brasileiras façam espetáculos.

Shadowside na Bélgica

P.I.: Ainda existem pessoas que dizem que bandas brasileiras, a exemplo da Shadowside, só têm grande reconhecimento no exterior, enquanto o público brasileiro não dá a atenção devida. Você concorda com essa afirmação? O que é preciso para mudar a mentalidade do headbanger brasileiro?
Dani: O que acontece é exatamente o que disse na pergunta anterior: as bandas brasileiras não têm possibilidade de fazer espetáculos e muitas vezes, ficam se digladiando quando uma banda exige uma condição um pouco melhor para tocar. Como o brasileiro vai gostar e dar atenção para as bandas nacionais, quando a grande maioria das bandas toca com qualquer coisa que colocarem no palco, sem a menor preocupação com a qualidade de som, com a estrutura da casa, sem qualquer respeito pelo ingresso que o fã pagou? O fã brasileiro está acostumado com banda brasileira fazendo “com o que tem” e banda estrangeira fazendo shows que os deixam de boca aberta. Nós estamos tentando mudar isso e frequentemente ouvimos bobagens, tanto de público quanto de outras bandas, porque estamos tentando “educar” os produtores de shows e igualar o nível das apresentações das bandas brasileiras com as de fora. Temos que igualar sim. O público brasileiro merece o melhor que as bandas podem oferecer e isso só se consegue com equipamento suficiente, não com qualquer coisa que saia som. Acho que quando o fã no Brasil tem a oportunidade de ver uma banda brasileira tocando com o que elas precisam para realmente fazer um show, ele fica surpreso. O brasileiro não tem preconceito, ele só não está acostumado a ver banda daqui com pouca estrutura. Lá na Europa, tocamos de igual para igual com todas as bandas, então o público vê tudo que podemos e sabemos fazer. Provavelmente esse é o motivo de termos mais fãs lá do que aqui, porém não tenho do que reclamar dos nossos fãs no Brasil. Temos uma base bem forte de pessoas que nos segue por aqui, que sempre esteve conosco e que nos apoia com muita força!

P.I.: Neste mês, no dia 26, na Via Marquês, vocês farão um show em São Paulo com um set list completo. O que os fãs podem esperar dessa apresentação?
Dani: Exatamente o que sempre quisemos fazer no Brasil e nunca tivemos a oportunidade! (risos) Faremos tudo que aprendemos nas turnês europeias, com produção de palco de nível internacional, músicas que não tocávamos há anos e o set list mais longo que já fizemos na capital paulista. Será o show mais impactante da carreira da banda, sem dúvida alguma. Ainda faremos uma jam com os nossos amigos do SupreMa que também estará tocando no evento. Quem perder, não verá isso de novo, pois não vamos mais repetir cidades na turnê do Inner Monster Out. Por onde passarmos este ano, em 2013, será a última vez e então só nos veremos na próxima turnê e já faz sete anos que não tínhamos oportunidade de tocar um show completo em São Paulo. Será uma ocasião mais que especial e ainda teremos uma festa com os fãs depois do show, que está sendo chamada de “meet and drink”, com água, refrigerante e cerveja de graça. Quem quiser ingressos para a festa, que já valem para o show também, deve entrar em contato conosco por meio do nosso Facebook oficial.

P.I.: Agora que o Inner Monster Out está amplamente divulgado e muito bem aceito no Brasil e no mundo, quais são os planos da Shadowside? Já estão trabalhando em um novo álbum de inéditas?
Dani: Ainda não estamos trabalhando no álbum, mas já temos ideias. Faremos mais alguns shows no Brasil, talvez uma turnê pelos Estados Unidos, que ainda está na fase inicial de planejamento e ainda não sei se acontecerá. Mas os shows pelo Brasil já são certos e estamos agendando mais datas. Quando esse ciclo do Inner Monster Out se encerrar, começaremos a trabalhar em um novo álbum, provavelmente no final de 2013. Acredito que vamos começar a gravar em algum momento de 2014.

P.I.: Muito obrigada por mais uma vez conversar com o Portal do Inferno. O espaço é seu para deixar um recado aos fãs.
Dani: Muito obrigada pelo espaço, pelo apoio, espero ver todos vocês nos shows aqui pelo Brasil, estávamos com muita saudade do público brasileiro. Até breve!

Renata Santos

Sou formada em jornalismo e colaboro com sites de música há quase dez anos. Integro a equipe do Portal do Inferno desde 2011.