Especial: metal e literatura!

O dia 23 de abril é tido pela UNESCO como o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor. A data serve para incentivar a leitura e a escrita; além de conscientizar as pessoas sobre a importância de um livro na formação intelectual e a importância em dar crédito e reconhecimento aos autores.

Esta data foi escolhida, pois, foi neste dia que faleceram grandes escritores como William Shakespeare (autor de Romeu e Julieta e de Hamlet), Inca Garcilaso de la Veja ( peruano tido como o primeiro escritor hispano-americano da história) e  Miguel de Cervantes ( autor de Dom Quixote de La Mancha). Embora, há a ressalva que o espanhol possivelmente morreu no dia 22 de abril, mas o óbito foi registrado no dia posterior.

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A literatura tem uma influência enorme até os dias de hoje. Seja no cinema, no teatro ou novelas, onde há sempre uma inspiração e homenagem às principais obras do passado.

Na música, não seria diferente e várias bandas, de vários gêneros, fizeram canções interpretando ou homenageando alguma obra literária.

O Heavy Metal, claro, não seria diferente. Desde seu início, vários músicos tiveram inspirações literárias em suas obras. Um dos mais notórios entre os headbangers é o escritor J.R.R.Tolkien (1892-1973) autor dos clássicos ‘O Senhor dos Anéis ‘ e  ‘ Hobbit’. O Blind Guardian mostra descaradamente sua idolatria pelos livros de Tolkien.  Há inclusive um álbum conceitual,  ‘Nightfall in the middle-earth’ (1998) que é todo voltado à coletânea de contos e poesias: ‘Silmarillion’. O grupo sueco Amon Amarth teve o nome retirado d’O Senhor dos Anéis e o termo significa ‘Montanha da Perdição’.

Já H.P. Lovecraft (1890/1937), que ficou famoso com seus contos de terror e ficcção científica , foi reverenciado por bandas como Metallica, Nile e Morbid Angel, dentre outras

Abaixo, o Portal do Inferno, separou 10 bandas que fizeram músicas influenciadas pela literatura.

Confira:

1-Angra-Wuthering Heights

Ok, a música não é do Angra e sim da cantora britânica Kate Bush. Entretanto, a canção regravada que está no primeiro álbum, Angels Crys, dos brasileiros, remete ao conto ‘O Morro dos Ventos Uivantes’. A letra aborda uma boa parte da história do único romance da britânica Emily Bronte (1818-1848).

O livro lançado em 1847 se passa na área rural britânica, bem afastada dos grandes centros, onde a família Earnshaw é a que detêm o poderio econômico e manda e desmanda na região. A partir daí a história fala sobre tradições familiares, hierarquia, amores proibidos, traições e tristezas.

O patriarca Earnshaw certa vez faz uma viagem à cidade e retorna dias depois com um menino de rua chamado Heatcliff. Este, por ser moreno, sem sobrenome e sem origem é motivo de chacota de todos pela casa (causando ciúmes no filho legítimo, Hindley, enquanto Catherine,a irmã, é mais amigavél).

Heatcliff cresce, vai embora e retornar à casa. Retorna rico e aproveita para se vingar de todos que o maltrataram. Ele reencontra também sua irmã Catherine, onde os dois se apaixonam.Mas de forma melancólica e com medo da pressão social, ela prefere casar com Edgar Linton, que tinha a tal ‘nobreza’. A partir daí a situação fica dramática com várias reviravoltas e tensões.

A música de Kate Bush foca em Catherine pensando em seus sentimentos em relação a Heahcliff, com amor e ódio devido a desilusão amorosa.

Abaixo a regravação do Angra com a bela voz do saudoso André Mattos:

2-Iron Maiden-Murders in the rue Morgue

O século XIX é marcado pelo surgimento de vários escritores focados em histórias de suspense e terror. Um dos mais conceituados foi o estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849) que sabia fazer tramas muito tensas e com finais imprevisíveis.

Um de seus contos mais famoso é o ‘Assassinato na Rua Morgue’, escrito em 1841.  A história se passa em Paris, onde 2 mulheres são assassinadas na Rua Morgue e o detetive C. Augustine Dupin tem a missão de desvendar o crime.  Dupin ainda apareceria em outros 2 contos de Poe, se tornando um dos principais personagens do escritor oriundo de Boston.

No Heavy Metal, o conto virou música através do Iron Maiden. Escrita pelo baixista Stevie Harris, a canção está no Killers (segundo álbum da Donzela e lançado em 1981). Com uma introdução sombria, dando ênfase ao contra baixo, a música vai acelerando aos poucos e embora tenha uma temática tensa e dramática, ela é bem divertida e conta com um refrão grudento.

3-Metallica-For whom the bell tolls

O segundo álbum do Metallica, ‘Ride the Lightning’, está entre as principais obras do heavy metal. Dentre os vários clássicos no disco lançado em 1984, há a música ‘For whom the Bell Tolls’, que é inspirada no livro homônimo de Ernest Hemingway. O escritor estadunidense (1899-1961) foi correspondente na Espanha, durante a guerra civil daquele país (1939-45) e seus livros são inspirados nas experiências que viveu nesse período. A obra é uma ficção calcada na realidade, onde Hemingway através do personagem Robert Jordan, narra os horrores da guerra e a degradação humana através dos conflitos bélicos.

Já a música do Metallica faz uma abordagem bem aflitiva sobre os males da guerra. De acordar, lutar, matar e tentar sobreviver. Os soldados nem sabem direito o porquê fazem isso, mas estão nas trincheiras e precisam cumprir suas funções e se proteger dos perigos que os rondam.

4-Metallica-Call of Ktullu

Ainda no album Ride The Lighting, a última faixa, é a instrumental Call of Ktullu. O nome vem de um livro do escritor H.P. Lovecraft (1890/1937), que publicava histórias de cunho de terror e ficção científica. Posteriormente, serviu, para inspirar várias bandas de heavy metal.

Ktullu foi uma das criaturas mitológicas criadas por Lovecraft, que visitaram o Planeta Terra, antes deste ser habitado por seres humanos.

Em 1999, o Metallica gravou um álbum ao vivo com a Orquestra Sinfônica de San Francisco. A versão The Call of Ktullu ganhou, em 2001, o Grammy de melhor performance instrumental de rock.

De fato, a versão no ‘S &M’  ficou bem interessante:

5-Blind Guardian- Nightfall in the middle-earth

A melhor combinação de quem é fã de Power Metal e RPG é o Blind Guardian. O grupo alemão soube explorar muito bem estas duas vertentes e juntou milhares de seguidores que os veneram até os dias atuais.

O sexto álbum de estúdio,Nightfall in the Midlle-Earth (1998), que é um disco conceitual sobre o livro Silmarillion, lançado em 1977, ou seja, após a morte do escritor.

Por conta disso, aqui destaco todo o ‘full-length’ do Blind Guardian, que é uma obra-prima e merece ser ouvido do início ao fim.

6- Nile-Beneath Eternal Oceans of Sand

A banda estadunidense Nile se tornou famosa não só pelo seu Brutal Death Black, mas por usar temas como as histórias e mitologia do Egito Antigo. Entretanto, nem só disso, vive o grupo oriundo de Carolina do Sul. Eles também demonstram muito interesse nas obras de H.P. Lovecraft. Logo no primeiro álbum, Amongst the Catacombs of Nephren-Ka, a última faixa, Beneath Eternal of Ocean Sands, é sobre o conto The Outsider (1921), que aborda a história de uma pessoa que vive reclusa em um castelo, não se recordando de seu passado e que busca sair de seu exílio em busca de contato com outros seres humanos.

7- Morbid Angel –Angel of Disease Covenant

Um dos pioneiros do Death Metal, o Morbid Angel sempre mostrou suas influências em livros e filmes envolvendo terror e suspense. Uma dessas inspirações foi o H.P.Lovecraft. No quarto álbum da banda da Flórida, Covenant, há várias menções a Lovecraft, sendo uma dessas na música ‘Angel of Disease’, onde novamente o monstro de Ktullu é invocado.

8-Kishi-Kianda

Saindo do mainstream, destaco a banda Kishi que tem músicas que contam o folclore de Angola. Uma das lendas mais divulgadas é a de Kianda. Uma sereia má e gananciosa que pede oferenda aos pescadores e caso eles não acatem seus pedidos, pagarão com a morte.

Há vários livros contando a história de Kianda, inclusive um que aborda uma suposta visita dela ao Brasil e mostram as semelhanças entre os dois países de língua portuguesa.

Para saber mais sobre a Kishi, confira esta entrevista aqui.

9-Bruce Dickinson-Chemical Wedding

Um dos melhores álbuns de heavy metal é o Chemical Weeding. Uma obra prima da carreira solo de Bruce Dickinson.

As músicas do full-lenght lançado em 1998, mostram toda inspiração do cantor em Aleister Crowley (1875/1947), um grande filósofo e escritor britânico, tidos por muitos como um ‘bruxo’, pois, ia contra os valores morais e religiosos da sociedade. Este, tinha como referência, o poeta William Blake (1757/1827), que tinha como ideia ir contra o ‘sistema’.

Algumas faixas do álbum tem o mesmo nome de poemas de Blake, como ‘Jerusalem’ e ‘Book of Thel’ e outras como ‘Gates of Urizen’ que se refere ao livro ‘Books of Urizen’.

Chemical Wedding é um disco excelente para quem quer ouvir heavy metal ( e bem pesado, diga-se de passagem) com letras profundas e conhecer obras de pensadores influentes como Blake e Crowley.

10-Dream Evil-Book of Heavy Metal

Finalizamos com um bônus: a abertura do terceiro álbum do Dream Evil,’ Books of Heavy Metal’, que leva o mesmo nome da música.

De fato, a canção não aborda nenhum livro, mas mostra a importância que este tem em nossas vidas. A letra fala sobre uma pessoa que quer ser um imortal do heavy metal e estar no livro que cita os que estão nesse seleto grupo. Ele leu o ‘manual de instrução sobre como ser um headbanger’, usou todos as vestimentas possíveis e estaria disposto a fazer um pacto com o diabo para se tornar um imortal no livro do heavy metal.

Os suecos definiram bem a importância de um livro e do heavy metal em nossas vidas.

Gostou? Como todos sabem, é impossível mencionar todas as bandas e caso haja alguma que mereça destaque, nos diga nos comentários.

Headbanger, jornalista formado, autor de 2 livros e mesatenista!

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