Rock & Aborto

Rock e Aborto

O filósofo e escritor italiano Umberto Eco (1932-2016) disse que o problema das redes sociais foi ter dado voz para uma legião de imbecis. Qualquer um pode dizer o que bem entender e, dependendo da situação, consegue relevância.

Se por um lado, estudar, se informar, pesquisar e buscar entender certos temas traz conhecimento e agregam na vida, por outro, proferir asneiras sem base e prova alguma, pode trazer boa visibilidade e criar polêmicas, principalmente no mundo virtual.

As pessoas começam a debater o tema e é muito comum virar discussão e baixaria.

Ao tentar ver o lado positivo disso tudo é que pautas podem surgir através da polêmica da semana.

Nesses últimos dias de 2019, um vídeo produzido por uma pessoa que ocupa um cargo importante na cultura brasileira fez uma associação do rock com a suposta indústria do aborto. É claro, que foi rebatido e satirizado por muitos apreciadores do mundo do rock. Até mesmo músicos se manifestaram repudiando a teoria da conspiração da tal autoridade.

O rock e suas vertentes abordam vários temas. O aborto não fica de fora. Desde músicas que tratam de forma cotidiana (como uma gravidez indesejada) até a imposição religiosa. Chocando e ferindo os princípios morais de muitas sociedades.

‘Pegando o gancho’ da polêmica da semana, trazemos aqui alguns grupos de rock que trataram o tema aborto (não necessariamente incentivando a indústria do aborto). É impossível mencionar todas as canções e se você, leitor, lembrar-se de alguma, cite nos comentários.

Por fim, o modo como o aborto é tratado nas músicas abaixo não condiz necessariamente com a opinião do site e de seus colaboradores.

Sex Pistols – Bodies
Por: Leonardo Cantarelli

Considerado por fãs e boa parte da imprensa como os criadores do punk rock, o Sex Pistols fez muito sucesso pelo fato dos integrantes serem oriundos de famílias pobres e lutarem ‘contra o sistema’.  O grupo britânico fez muito sucesso por chocar a sociedade da época, tanto pelo visual como pelo discurso.

Um dos seus sucessos foi a música Bodies, lançada no único álbum ‘Never Mind the Bollocks, Here’s The Sex Pistols’, que fala sobre Pauline, uma mulher que realizou vários abortos durante a vida.

Embora, sejam considerados punks e contra o sistema, a canção lançada em 1977 é tida por muitos como conservadora e contra aborto. Isso deve ao fato da canção ofender Pauline, chamando-a de animal e enfatizarem muito a importância da vida do feto, que não tem escolha na hora do aborto.

Death – Altering the future
Por:
Leonardo Cantarelli

O Death é uma das bandas que mais fez críticas profundas na sociedade e nas religiões (principalmente as evangélicas e a exploração financeira dos fieis). Os norte-americanos não têm medo de por o ‘dedo na ferida’. Na música que está no álbum ‘Spiritual Healing’, lançado em 1990, o grupo oriundo da Flórida, debate sobre a importância da vida e a questão de outros decidirem se alguém deve seguir vivo ou não. Se outro virá ao mundo ou não. A letra ainda fala sobre as consequências de vir para este planeta e ter que encarar um mundo cruel. O quão é vantajoso estar vivo nesse meio? O quão é vantajoso estar vivo e acabar em uma lata de lixo, por exemplo?

Kreator – Catholic Despot
Por:
Leonardo Cantarelli

O Kreator é uma das bandas de heavy metal que mais deixam clara sua posição política e social. A música que está no disco “Cause for Conflict” (1995), fala sobre a ditadura imposta sobre o catolicismo na sociedade. Critica os dogmas da Igreja Católica, sendo um deles a questão do aborto e o fato de deixarem explícito que é pecado e não abrir para discussões. A banda alemã se mostra contrária a isso.

Belphegor – Last Supper (álbum)
Por:
Leonardo Cantarelli

A imagem do primeiro álbum do Belphegor por si só deixa qualquer moralista assustado: um feto morto, sangrando e posto em um prato de comida. Claro que a capa foi censurada em vários países (assim como outras do grupo austríaco, substituídas por ilustrações menos chocantes). O CD lançado em 1995 é intitulado Last Supper (A última ceia). O link abaixo vai com todas as músicas, pois é muito rico e é a essência do Belphegor: letras sobre anti-cristo, morte, sangue, ditaduras religiosas, com altas doses de crítica e muita falta de pudor.

https://www.youtube.com/watch?v=ah–sqZhakY

Dying Fetus – From Womb to Waste
Por:
Leonardo Cantarelli

A banda norte-americana tem um nome bem apropriado para esta matéria: Feto agonizando.

Como muitos grupos que praticam um Brutal Death/Grind, as letras falam dos maiores absurdos que podem ser realizados pelo ser humano (violência como assassinato, tortura, estupro, dentre outros).

A música indicada é “From Womb to Waste” (Do ventre para a cesta de lixo). A canção aborda as consequências de uma gravidez indesejada e as consequências de um bebê que nasce no submundo lutando pela sobrevivência. Abordando a questão do quão valeu a pena ter nascido e os desafios para enfrentar as adversidades vinda do submundo (carência de moradia, estudos, acesso fácil às drogas e a violência). Será que vale a pena nascer em uma situação dessas?

Aborted – Deep Red
Por:
Leonardo Cantarelli

A banda aqui entra mais pelo nome que por si só, já que é o tema desse especial. O grupo oriundo da Bélgica (e já teve integrantes de vários países) deixa bem claro sua posição contra qualquer preconceito. Suas músicas falam sobre violência, questões existenciais, morte e bizarrices humanas.

A música escolhida é “Deep Red” do último álbum, “Terrovision” (lançado em 2018).

Lindemann – Praise Abort
Por:
Flávio Diniz

Com o projeto que leva seu nome, o vocalista do Rammstein mostra que com sua banda ou não, polêmicas são o que movem sua vida. Peter Tägtren (Hypocrisy) é o outro grande nome do trabalho. Participa gravando basicamente todos os instrumentos, produzindo e mixando o álbum. A faixa “Praise Abort” fecha o álbum de estreia “Skills in Pills”, lançado em 2015. A faixa fala sobre aborto, como não podia deixar de ser, de uma maneira escrachada, com humor ácido e o classifica como uma forma de resolver todos os problemas da vida do narrador, que diz odiar sua vida, sua esposa, seus filhos, etc. Compara sua vida à de seus amigos, que não tem filhos, mas tem um excelente padrão de vida e são felizes. A sonoridade segue a linha do Rammstein, rock pesado industrial, eletrônico e bastante comercial. O clipe é a moldura perfeita para transmitir a mensagem da letra ao modo de Lindemann.

Cannibal Corpse – Butchered at Birth
Por:
Flávio Diniz

Um dos mestres do Death Metal mundial, o Cannibal Corpse sempre abordou o tema gore/splatter em suas letras, frequentemente até de uma forma caricata, como são os filmes trash. Com mais de trinta anos de carreira, certamente um tema como aborto não passaria batido da parte lírica desta banda. A faixa escolhida é a faixa-título de um álbum considerado por muitos como um dos melhores de sua carreira, “Butchered at Birth”, de 1991, ainda com Chris Barnes no vocal. A letra “Massacrado no Nascimento” traz um personagem sádico, virulento e insano que mata mãe e filho recém-nascido, estripando e se regozijando em suas entranhas.

Carcass – Microwaved Uterogestation
Por:
Flávio Diniz

Tidos como os pais do grindcore, os primeiros álbuns do Carcass traziam uma sonoridade suja, pesada e extrema. As letras, obviamente seguiam essa linha, usando e abusando do estilo gore/splatter, fazendo com que até hoje a banda seja considerada como grande influenciadora do estilo. “Reek of Putrefaction”, álbum de 1988 é o primeiro grande trabalho dos ingleses. Com suas 22 músicas, fez muito barulho à época. O Carcass também já fez muito uso de termos médicos (ainda no espectro splatter) em suas composições, mas é no debut-album que a banda explora o tema dessa matéria. A faixa “Microwaved Uterogestation” já dá uma boa pista do que vem pela frente em seu título. Violência e nojeira em doses cavalares aliados à termos técnicos abordam a destruição/obliteração de útero e de um feto. Embora estejamos falando apenas de uma letra, ela definitivamente não é recomendada para pessoas de estômago fraco. Portanto, deixamos para os mais curiosos que ainda não conhecem a obra, a missão de adquirir este conhecimento por conta própria.

Disforme – Seu Corpo
Por:
Flávio Diniz

Formada no início de 2005 em Brasília, o Disforme é a única banda brasileira da nossa lista, além de ser também a única com uma mulher na formação, a vocalista Tainara. Com uma sonoridade Hardcore/Punk, a temática das letras segue o esperado para o estilo: críticas político-sociais, além do ativismo em prol de algumas causas, como LGBTQ, anti-homofobia, feminismo e consequentemente pela liberdade da mulher decidir pelo aborto. Em 2015, os brasilienses lançaram o Split “Limbo” junto à banda Manger Cadavre?, Hardcore/Crust do Vale do Paraíba. No split, a banda apresenta a faixa “Seu Corpo”, que critica leis autoritárias e influências religiosas que decidem pela mulher se tem ou não o direito ao aborto.

A música pode ser ouvida no vídeo abaixo, com o split na íntegra.