Não teve frio, nem trânsito caótico, nem feriado prolongado que impediu os headbangers de São Paulo saírem de casa para presenciar uma noite histórica na sexta-feira, 27 de abril. Sob o mesmo teto, três grandes ícones do Death/Thrash Metal brasileiro, Punk Rock e Thrash Metal – Torture Squad, Misfits e Anthrax, respectivamente – deixaram ouvidos zunindo, dores no corpo, voz rouca e a sensação de alma lavada em muitos fãs até o fim do feriado.

Anthrax

Torture Squad
“Esse é o começo de uma nova era para o Torture Squad”. Pulando rapidamente para o fim da apresentação, foi com essa frase que o baterista Amílcar Christófaro saudou os fãs. Esse foi o primeiro show da banda como um trio, sem Vitor Rodrigues nos vocais, que anunciou a sua saída do grupo no começo de abril, após 19 anos.

Torture Squad

O Torture Squad subiu no palco por volta das 20h, pouco tempo depois que as portas da casa se abriram para o público. Com a casa relativamente vazia, André Evaristo, agora assumindo a voz, Castor (baixo) e Amílcar tocaram clássicos que marcam a história da banda, como Generation Dead, Pandemonium, do disco homônimo de 2003; músicas do último CD lançado, AEquilibrium, de 2010; e uma surpresa anunciada por André: “Essa é uma noite especial. Vocês estão prontos para mais 20 anos de banda?” e tocaram uma música nova, ainda sem letra e sem nome, que foi apresentada como um presente aos fãs. Horror and Torture e Chaos Corporation encerraram a noite.

Esse show teve muita energia, era nítida a vontade da banda de fazer dessa uma noite inesquecível, não somente para os fãs, mas para eles mesmos. Sim, a ausência de Vitor foi sentida, mas André está preparado para levar os vocais e ajudar a construir essa nova fase do Torture Squad.

Misfits
Faz pouco mais de um ano desde que esta grande banda precursora do Horror Punk tocou pela última vez em São Paulo. Desta vez, o Misfits foi convidado para ser co-headliner dos shows do Anthrax no Brasil e fez grandes apresentações para um público que, provavelmente, não conhecia muito, mas sabia que essa era a banda responsável pelas músicas que o Metallica e o Guns ‘n’ Roses regravaram. Jerry Only (voz e baixo), Dez Cadena (guitarra e voz) e Eric “Chupacabra” Arce (bateria) deram uma verdadeira aula de Punk Rock, levantaram o HSBC Brasil.

“One, two, three, four!”, essa contagem clássica do punk também deu o tom para o Misfits. Os integrantes mal deram tempo para a galera respirar e emendaram clássico atrás de clássico, como Static Age, Scream, Twilight of the Dead, entre tantos outros. O show não estava nem na metade quando uma das cordas da guitarra de Dez estourou, durante a execução de Bullet, mas o guitarrista levou a música até o fim e, o primeiro intervalo aconteceu enquanto o músico trocava seu instrumento. Jerry aproveitou para agradecer o público e dedicou a próxima música, She, para uma fã que estava na grade e que lhe entregou algum presente pelo seu aniversário, comemorado no dia 21 de abril.

Misfits

Os seguranças tiveram trabalho durante o show dos Misfits: muitos fãs da pista comum se aventuravam sobre a plateia e eram levados até a grade que marcava o início da pista vip. O show seguiu para a reta final com American Psycho, Abominable Dr. Phibes, The Monkey’s Paw (uma canção de amor, segundo Jerry), Halloween, Thristy and Miserable (cover de Black Flag, antiga banda de Dez). Mais uma rápida pausa e Jerry dedicou Descending Angel para a mãe de seu filho que estava hospitalizada e desejou uma rápida recuperação.

Para encerrar o show, a música que o Metallica trouxe para o mundo do thrash metal em 1998, no álbum Garage Inc., Die Die My Darling, cuja versão original foi lançada em 1984, na voz de Glenn Danzig. Um fim esperado, porém perfeito para selar a euforia da plateia do HSBC. A banda agradeceu a galera e Jerry ainda desceu do palco, passou a mão na maquiagem preta dos seus olhos e sujou o rosto de alguns sortudos fãs que estavam próximos. E, então, oa músicos deixaram o palco com a certeza de papel cumprido, e a plateia, por sua vez, muito empolgada pelo grande momento histórico que acabaram de presenciar.

Anthrax
Faltam palavras para descrever o que foi o show do Anthrax! Em turnê de promoção do último álbum, Worship Music, lançado em 2011, a banda fez um show ensurdecedor. A empolgação, beirando a (boa) insanidade, vinha de todos os lugares, inclusive do palco, com Scott Ian (guitarra), Charlie Benante (bateria), Frank Bello (baixo), Rob Caggiano (guitarra) e Joey Belladonna (voz) dando o máximo de si para fazer um show que compensasse os sete anos de espera do público brasileiro.

A porrada musical já começou com dois sons novos: Earth on Hell e Fight ‘Em Till You Can’t, uma canção inspirada em zumbis, um tema que Scott Ian gosta muito. Depois, a banda fez uma viagem ao tempo e voltou para a década de 1980, com Caught In A Mosh e Antisocial. A essa altura, a plateia já estava mais do que ganha e cada um procurava viver aquele momento como se fosse o primeiro e último show de suas vidas.

Anthrax

O setlist continuou com I’m Alive, mais uma música do Worship Music (o set original previa The Devil You Know, mas por alguma razão a banda decidiu mudar), seguida de Indians. In the End foi a última música do novo álbum e Scott pediu para todo mundo pular – e, é claro, foi prontamente atendido. A partir daí, o Anthrax apresentou só clássicos das antigas. Após Got the Time, cover de Joe Jackson, Ian agradeceu muito aos que esperaram por sete anos e disse que o Brasil detona. Em seguida, o guitarrista anunciou “a música que define o Thrash Metal”, a primeira música do primeiro álbum do Anthrax, Deathrider. Aliás, esta e Metal Thrashing Mad, tocada no primeiro bis, foram as únicas músicas que não são da fase de Joey Belladonna na banda.

O Anthrax contou com uma rápida presença ilustre no seu público. Jerry Only saiu do camarim e foi para a área em frente ao palco enquanto a banda tocava. Os sortudos que estavam na grade do lado direito da casa puderam tirar fotos com o simpático vocalista do Misfits. Jerry logo voltou para o fundo da casa e o show seguiu normalmente.

Já passava da meia-noite e nem banda nem fãs demonstravam cansaço. A linha de frente do Anthrax se movimenta tanto no palco, bangueia, pula, agita tanto que fica até difícil de acompanhar. A banda mandou mais três sons clássicos: Medusa, de 1985, Among the Living e Be All, End All, com o público fazendo coro e cantando mais alto que as guitarras do começo da música.

Anthrax

Após uma curta pausa, a banda voltou para tocar Madhouse e Metal Thrashing Mad e todos sabiam que faltava pouco para o show terminar. Enquanto a banda se preparava, Charlie fez uns sons improvisados na bateria e o público o acompanhou. O Anthrax começou o segundo bis com I’m the Man, música com fortes pitadas de rap e hip hop americano, uma mistura que a banda foi uma das primeiras a apostar. Em seguida, o HSBC foi à loucura quando Scott Ian gritou em português “UM, DOIS, TRÊS, QUATRO!” e os primeiros acordes de Refuse/Resist, do Sepultura, foram tocados. A amizade entre as duas bandas é de conhecimento de todos e a alegria de ouvir um som brasileiro tocado por eles foi contagiante. E sem qualquer tempo para recuperar o fôlego, a banda emendou com I Am the Law e, assim, encerrou a noite, com Joey agitando a bandeira do Brasil.

Durante todo o show, e no fim não foi diferente, Scott agradeceu aos fãs, pediu para que não deixassem a chama do Thrash Metal apagar e disse que esperava voltar para o País em breve. Joey também agradeceu a presença de todos e, antes de sair, cantou um único (e mais conhecido) verso de Long Live Rock ‘n’ Roll, do Rainbow, como se fosse uma mensagem para todos os que estavam lá. E foi com essa música tocando de trilha que a banda se retirou do palco.

O Anthrax fez um show memorável, um dos melhores do ano que pudemos ver no Brasil, até agora. São mais de 30 anos de uma das bandas que representa o Big Four. Com tantas mudanças em sua formação ao longo dos anos, e após tantos momentos difíceis que a banda viveu, especialmente no ano passado, o Anthrax parece que conseguiu exorcizar todas as más vibrações e está pronta para voltar com tudo e continuar a escrever, com muito sucesso, a sua história no Thrash Metal.

Setlist Misfits:

The Devil’s Rain
Vivid Red
Land of the Dead
The Black Hole
Scream!
Twilight of the Dead
Father
Static Age
Bullet
She
Abominable Dr. Phibes
American Psycho
The Shining
Dig Up Her Bones
The Monkeys Paw
Halloween
Skulls
Where Eagles Dare
Hatebreeders
Thirsty and Miserable
Saturday Night
Descending Angel
Die, Die My Darling

Setlist Anthrax:

Earth on Hell
Fight ‘Em Till You Can’t
Caught in a Mosh
Antisocial
I’m Alive
Indians
In the End
Got the Time
Deathrider
Medusa
Among the Living
Be All, End All

Bis 1

Madhouse
Metal Thrashing Mad

Bis 2

I’m the Man
Refuse/Resist
I am the Law

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Escrito por

Renata Santos

Sou formada em jornalismo e colaboro com sites de música há quase dez anos. Integro a equipe do Portal do Inferno desde 2011.